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20 fevereiro 2023

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)


Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill
in “No Reino da Dinamarca : obra poética 1951-1965”
Lisboa, Guimarães Editores, imp. 1974. p. 50

25 agosto 2022

nada tão silencioso como o tempo no interior do corpo



"Nada tão silencioso como o tempo

no interior do corpo. Porque ele passa

com um rumor nas pedras que nos cobrem,

e pelo sonoro desalinho de algumas árvores

que são os nossos cabelos imaginários.

Até na íris dos olhos o tempo

faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo

ou esfera húmida de algum astro

ignoto, numa órbita apartada,

o tempo caladamente persegue

o sangue que se esvai sem som.

Entre o princípio e o fim vem corroer

as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança

das musicais manhãs dos pássaros.

Mesmo os ouvidos cantam até à noite

ouvindo o amor de cada dia.

A pele escorre pelo corpo, com o seu correr

de água, e as lágrimas da angústia

são estridentes quando buscam o eco.

Mas nós sentimos dentro do coração que somos

filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,

foi depois de termos amado ontem.

O tempo é silencioso e enigmático

imerso no denso calor do ventre.

Guardado no silêncio mais espesso,

o tempo faz e desfaz a vida.”


Fiama Hasse Pais Brandão

in Cenas Vivas

19 outubro 2021

nove anos sem ele

 


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
Manuel António Pina
in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

22 junho 2021

...

Que merda a nostalgia – nasce na respiração
E fica demoradamente. A sombra
Por dentro dos olhos, a baba, o sono,
O excesso de sensibilidade nos dentes
E a pele susceptível à roupa. Tão próxima
Que queima e gela em simultâneo, dor
Tão pequenina que nem acciona
As reacções fisiológicas de defesa.
Os detritos da festa acumulam-se,
A memória ateia distantes fogachos
De felicidades impossíveis, gomos
De saudade, uma pena sem coragem
Ou ternura. Que merda a nostalgia,
Horizonte falsificado por linhas
Rectas de solilóquio pensado,
Luz que não vem ou vem em excesso,
Carga de ombro inesperada no meio
Do campo deserto. Que braços se abrem
Para deter a espuma amarelada
Com que a maré polui o areal?
 
Rui Almeida



17 maio 2021

era um pássaro alto

 

Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.

Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.
Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.
Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.
Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.
Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.

                                        Artur do Cruzeiro Seixas

21 dezembro 2020

adenda (em forma de espelho)

 

"Aos vinte e cinco anos fui viajar. Estive em muitos países. Vivi alguns anos em várias das maiores cidades do mundo. Valeu a pena. Não há raças nem países. O homem é estúpido. E precisa que o amem, precisa amar. Um pouco repugnante, não? Mas pode-se amá-lo, assim repugnante."
Herberto Helder, "O Quarto", 
in Os Passos em Volta

05 novembro 2020

Poema encontrado no fundo do balde do lixo

"Conheço todos os argumentos. 

Conheço todos os contra-argumentos. 

Conheço a futilidade da nossa vida. 

Conheço a fome, a sede, a ânsia. 

A alegria. 

O amor? Também. 

O desamor. A felicidade e a desgraça.

Tropeço cada dia na mesma pedra.

Tropeço cada dia na mesma pedra. 

Tropeço cada dia na mesma pedra. 

No fim já não se sabe

se há pedra ou se tropeçamos 

por hábito, por amor à arte,

porque não somos capazes de outra coisa. 

Porque o homem é um animal que tropeça.

Porque não somos capazes de outra coisa. "

Roger Wolfe

08 outubro 2020

Louise Glück

"O tempo passou, transformou tudo em gelo.
Sob o gelo, o futuro bulia.
Se caísses lá dentro, morrias.

Era um tempo
de espera, de acção suspensa.

Eu vivia no presente, que era

a parte do futuro que podíamos ver.
O passado pairava sobre a minha cabeça,
como o sol e a lua, visível mas inalcançável.

Era um tempo
governado por contradições, como
Não sentia nada e
tinha medo.

O inverno esvaziou as árvores, voltou a enchê-las de neve.
Como eu nada sentisse, a neve caiu, o lago gelou.
Como se eu tivesse medo, permaneci imóvel;
o meu bafo era branco, uma descrição do silêncio.

O tempo passou, e uma parte dele tornou-se isto.
E outra parte evaporou-se simplesmente;
podíamos vê-la a pairar sobre as árvores brancas,
formava partículas de gelo.

Esperas a vida inteira pelo momento oportuno.
Depois o momento oportuno
revela-se acção consumada.

Eu via mover-se o passado, uma fila de nuvens a avançar
da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda,
consoante o vento. Por vezes

não havia vento. As nuvens pareciam
ficar onde estavam,
como uma pintura do mar, mais imóveis do que reais.

Por vezes o lago era um lençol de vidro.
Sob o vidro, o futuro murmurava,
modesto, convidativo:
tinhas de te concentrar para o não ouvires.

O tempo passou; chegaste a ver parte dele.
Os anos que levou eram anos de inverno;
ninguém lhes sentiria a falta. Por vezes

não havia nuvens, como se
as fontes do passado tivessem desaparecido. O mundo

perdera a cor, como um negativo; a luz atravessava-o
de lado a lado. Depois
a imagem apagava-se.

Por cima do mundo
só havia azul, azul em toda a parte."

Louise Glück - Prémio Nobel da Literatura 2020

Tradução – Rui Pires Cabral
in “Telhados de vidro” nº. 12, Editora Averno, Lisboa, 2009

02 outubro 2020

das horas em 2020

"Toda a gente passou horas

Em que andou desencontrado

Como à espera do comboio

Na paragem do autocarro"

Sérgio Godinho
Fotografia de Nuno Abreu (mais info. em https://olhares.com/quanto-tempo-o-tempo-tem-foto1320462.html#)

29 setembro 2020

(...)

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites, não dos meses,
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes, ah por vezes,
num segundo se evolam tantos anos."

David Mourão-Ferreira



18 setembro 2020

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

 

You are welcome to Elsinore

 

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas      portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

 

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

 

Mário Cesariny “Pena Capital”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1982

02 setembro 2020

se puderes...

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Sísifo, Miguel Torga, Diário XIII

15 julho 2020

paisagem com grão de areia

"(...)
Houve marcas, sinais,
que importa se legíveis.
(...)
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio."

Wislawa Szymborska, in "Paisagem com grão de areia" tradução de Júlio Sousa Gomes, edição Relógio D’ Água

24 maio 2020

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny, in Pena Capital

21 março 2020

Reli, neste fim de tarde da tua ausência,
as palavras que me deste
para não sucumbir ao desalento
da distância imposta.
São brasa,
são lume,
são nêspera doce
e vagamente agre
que apetece levar à boca,
como se cada dia pudesse ser
o último dia de verão
das nossas vidas
a dois
e por vontade dos deuses o soubéssemos.
São húmus primordial e quente
que alimentam a espera,
que hoje ainda estamos
longe e vestidos de morna primavera.

Carmen Zita Ferreira



14 fevereiro 2020

o que ainda não chegou é infinito


“A culpa é tua se dizes sempre o mesmo nome
se tens sempre a mesma idade
e a mesma casa
se quando revelas a tua identidade
é impossível que o céu te expluda
e que te acudas de incertezas
e de novos buracos.
A culpa é tua se ainda não morreste,
se nunca te atrincheiraste à espera
de uma bomba que te mude os olhos
se nasces sempre no mesmo dia.

Não te aflijas.
Estás sempre a tempo de não
dormir na mesma posição
com a mão aberta em esmola

Também me custa sobre viver a estes dias
mas o que ainda não chegou
é infinito.”

Cláudia R. Sampaio
In “Já não me deito em pose de morrer”, ed. Porto Editora