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21 outubro 2013

Se me esqueceres (pablo neruda)

Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.

Pablo Neruda, 
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

Fotografia de Nuno Abreu

21 setembro 2012

um entre os mais

«A terceira miséria é esta, a de hoje.


A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E, ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua.»

HÉLIA CORREIA,

in "A Terceira Miséria", Relógio d'Água, Fev. 2012.

fotografia de David Fonseca

09 julho 2012

gaivota



Se uma gaivota viesse

trazer-me o céu de Lisboa

no desenho que fizesse,

nesse céu onde o olhar

é uma asa que não voa,

esmorece e cai no mar.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se um português marinheiro,

dos sete mares andarilho,

fosse quem sabe o primeiro

a contar-me o que inventasse,

se um olhar de novo brilho

no meu olhar se enlaçasse.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se ao dizer adeus à vida

as aves todas do céu,

me dessem na despedida

o teu olhar derradeiro,

esse olhar que era só teu,

amor que foste o primeiro.



Que perfeito coração

no meu peito morreria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde perfeito

bateu o meu coração.



Alexandre O´Neill

28 abril 2011

Abat-jour



Fotografia de Stanislav Istratov

Abat-jour

A lâmpada acesa
(outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.

No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.

E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.

Bem sei… era dia
E longe de aqui…
Quanto me sorria
O que nunca vi!

E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar…

Fernando Pessoa (28-2-1929)
In “Poesia 1918-1930”,
Ed Assírio & Alvim, 2005, pg. 319

04 agosto 2009

Foto procura legenda

Com a arte do Nuno Abreu

Às vezes a janela que se devia abrir quando se fecha uma porta tem de ser partida por nós.


28 abril 2009

Na hora da solidão

Fotografia de José Ferreira
Na hora da solidão
arrumam-se os medos
em pequenas caixas
pintadas a carvão
pelas mesmas mãos
pelos mesmos dedos
com que se apontam alegrias
em secretos diários de ouro
(esse revelador clarão).

Na hora da solidão
o silêncio.

Na hora da solidão
a luz.

Carmen Zita Ferreira
II Antologia de Poetas Lusófonos,
Ed. Folheto, 2009, pg.74

01 março 2009

Alone


Fotografia Alba Luna

From childhood's hour I have not been
as others were; I have not seen
as others saw; I could not bring
my passions from a common spring.

From the same source I have not taken
my sorrow; I could not awaken
my heart to joy at the same tone;
and all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
of a most stormy life- was drawn
from every depth of good and ill
the mystery which binds me still:
from the torrent, or the fountain,
from the red cliff of the mountain,
from the sun that round me rolled
in its autumn tint of gold,
from the lightning in the sky
as it passed me flying by,
from the thunder and the storm,
and the cloud that took the form
(when the rest of Heaven was blue)
of a demon in my view.

Edgar Allan Poe

03 fevereiro 2009

Os amigos

Fotografia de Luís Pinto
Os amigos

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles
e são sempre adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos
no seu exagero de temporalidade pura.

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos explica
por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis.

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor.

José Tolentino Mendonça
in De Igual Para Igual, Assírio & Alvim, 2001.

29 janeiro 2009

O telefone e a metafísica

Fotografia de Zdzislaw Waciak


O telefone e a metafísica

Acontece que
vais à caderneta de telefones e ela
que antes (sabias) estava cheia
de números e nomes
repentinamente está vazia.

De A a Z
vazia.

Onde tudo e todos?
Roubaram os ossos do telefone,
que não te pode levar a lugar nenhum.

Perplexo, descobres que existir
é deserto.

Eucanaã Ferraz
in Livro Primeiro. Rio de Janeiro, Edição do autor, 1990.

21 janeiro 2009


Fotografia de Maria Jesus


«e ela cega
e ela sabe
ai onde vai

e ela cai
mas ao cair
finge-se cega

e ela entrega
sente o fundo
de quem a tem

e ela vem
sem que alguém
sinta chegar

e ela dor
deixa-te só
faz-te chorar

ela ensina
ela engana
ai a saudade
e o desejo
de mais um beijo

tocar a mão
e se ela existe
ela resiste

mesmo se os olhos
dizem que não ela insiste
espera em vão

mas ela é vida
triste a vida
sem ela»

Sitiados

04 março 2008

I taught myself how to grow

" Sometimes I feel like I'm going insane
Without the numbness or the pain so intense to feel
Especially now it added up through the years
And I, I taught myself how to grow
Without any love and there was poison in the rain
I taught myself how to grow
Now I'm crooked on the outside, and the inside's broke"

(Ryan Adams talk)
Foto:
myszok