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08 outubro 2009

Boneca de pano-encantado V

Revolvem-se os folhos
de um vestido de pano
numa boneca de pano-encantado,
feito de trapos,
remendado,
com emendas sucessivas,
impostas pela sucessão dos dias.

Revolvem-se as cores
que se foram gastando com o tempo,
como o foram o brilho do seu sorriso fingido,
a beleza do seu velho vestido
e as suas mãos, que se tornaram frias.
Dir-se-ia tratar-se de uma boneca condenada
com a raiva de viver em sorrisos ocultada.
Dir-se-ia ser uma imagem da apatia
de uma boneca de vida vazia.
E tudo o que se diga não vai chegar
porque se está a falar
de uma boneca que queria revestir-se
não de pano mas de mar.
São os sonhos que a mantêm
numa prateleira à espera
de dias compridos
em que o Sol a deixe falar com os deuses
que seus mitos possam cristalizar.
São os sonhos que lhe revolvem os folhos
debotados pelo tic-tac contínuo
do livro onde sem querer
esta boneca de encantado-pano acabou por entrar.

São os sonhos
que admitem remendos no vestido,
no seu corpo,
no seu corpo desde sempre remendado.
São os sonhos
e a imagem de um mundo
também ele encantado.

Carmen Zita Ferreira
in Jogo de Espelhos, Ed. Som da Tinta, 2004

14 setembro 2009

Boneca de pano-encantado IV

Fotografia de Nuno Estrela


Brinca, boneca-de-pano-encantado.
Teus trajes são sonhos,
tua fantasia é nada.
Da tua quimera
perdida e desencantada
não podes exigir nada mais do que horror.
De que esperas?
Crescer não poderá ser solução.
Estagnada à beira do pontão
que deixa a tua ilha e entra no mar,
brinca.
Deixa cair teu corpo,
entra no atraente brilho molhado,
não lutes contra as ondas,
despede-te de teu navio ancorado
e todos pensarão
que continuas a brincar.

Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos, 2004,

Ed. Som da Tinta, pg.25

12 setembro 2009

Boneca de pano-encantado III


Fotografia de Sérgio Simões

De regresso às nuvens
veio uma boneca-de-pano-encantado,
que as nuvens sempre quis habitar
e nunca outro lado.

Que viagens de perdição acolheu
nestes dias em que no seu reino não choveu.

A vertigem da subida ao céu
ofereceu-lhe a loucura.

Vertigem de sentir demais,
vertigem de sentir ser a mais a dor que a consome.

Regresso às nuvens.
Aventura.
Boneca que de fantasia tem fome
das nuvens fez sua casa.
Boneca sem vida,
viver nas nuvens pode ser bom
mas o Sol que aquece,
por vezes abrasa.


Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos,
2004, Ed. Som da Tinta, pg. 23

05 setembro 2009

Boneca de pano-encantado II




Fotografia de Julia Kan

Uma boneca de pano-encantado,
que vivia perdida em labirintos de simulações,
acordou diferente uma manhã
desconhecendo as razões.

Suas pernas de trapo desapareceram,
substituiu-as uma cauda sedosa.
Um cabelo forte e rebelde,
suas tranças cor-de-rosa.
Seus olhos fixos, de boneca encantada,
por olhos vivos, como os de quem não quer perder nada.
Suas mãos sem dedos e de algodão
por dez dedos que anseiam tocar marés.
As penas, que habitavam seu coração
por mil desejos, de ter o mundo a seus pés.
Dezenas de bonecos companheiros
por um golfinho só para encantar.
O pó de suas prateleiras
pelo encanto do seu infinito mar.
A escuridão das ausentes estrelas
por uma pura luz... Pelo luar.
Uma simples boneca de encantados trapos,
a quem quedavam sonhos, planos e vida
acolheu a essência de cada dia,
para nunca ter uma jornada perdida.

Substituiu castelos
por mar, Sol e areia.
Não, já não é uma boneca.
Não, hoje acordou sereia.


Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos, 2004,
Ed. Som da Tinta, pg.19

27 agosto 2009

Boneca de pano-encantado - I

Fotografia de Gabriela C. Bertão


Sorri, boneca de pano-encantado!
Mostra que, apesar de não a teres sonhado,
acolhes a realidade que hoje vives.

Sorri, pois estão a olhar para ti.
Ninguém se importa se quer chorar quem ri
sonhando um longínquo paraíso acordado.

Olha a multidão que não te olha,
vê como estás só neste sufoco de gente.
Vê como no fundo és tão diferente.

Luta, boneca, luta,
por aquilo que querem que vás lutar,
por aquilo que nunca ambicionaste amar.

Luta, por alguém que há-de vir
por alguém que vai ter de sorrir
mesmo que, no fundo, queira chorar.

Serão teus filhos?
Saberão eles quais são os perigos
de não se sorrir, quando se não quer?
Saberão eles que, se forem “mulher”
o mundo pouco terá para lhes oferecer,
apenas imposições, dores e castigos?

Sorri, boneca de pano-encantado!
Acaba de escrever, põe o pensamento de lado
e a tua cara decora com sorrisos.

Podes escrever... pouco... mas podes.
Não podes é ambicionar ou querer
que depois alguém dê valor ao que vai ler.

És mulher: o que podes fazer é ensinar.
Ensinar a ler, ensinar a amar,
ensinar a ver a luz que te consome.

Consomes, tu, a luz de um doce olhar,
consomes o gosto de um salgado mar
e mesmo sem os teres, deves sorrir.

Sorri boneca de pano-encantado!
Encara o futuro,
liberta-te do passado.
lembra-te que ainda pode haver
um porto seguro
e recatado,
que acolha o teu sorrir,
o teu viver.
Lembra-te de que “a esperança
é a última a morrer”.



Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos, 2004,
Ed. Som da Tinta, pg. 17