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27 janeiro 2023
02 novembro 2018
(deixa passar a vida)
Ode à Paz
"Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
"Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!"
Natália Correia,
in "Inéditos (1985/1990)"
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!"
Natália Correia,
in "Inéditos (1985/1990)"
14 setembro 2012
papa a papa
As alunas das doroteias
comem todas as manhãs
uma loura papa de aveia
e nisto são meninas cristãs.
Mas para que não conste que estas florinhas
são antropófagas e pagãs,
para que se não diga que elas comem
o Santo Padre todas as manhãs,
uma freira a quem nada escapa
e que depois de morta vai ser santinha
ensinou-lhes que em vez de papa
elas devem dizer farinha.
Natália Correia (1923-1993)
in Poesia Completa, Ed. Dom Quixote, pg. 55
comem todas as manhãs
uma loura papa de aveia
e nisto são meninas cristãs.
Mas para que não conste que estas florinhas
são antropófagas e pagãs,
para que se não diga que elas comem
o Santo Padre todas as manhãs,
uma freira a quem nada escapa
e que depois de morta vai ser santinha
ensinou-lhes que em vez de papa
elas devem dizer farinha.
Natália Correia (1923-1993)
in Poesia Completa, Ed. Dom Quixote, pg. 55
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