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22 fevereiro 2013

se cantasse

Se cantasse, talvez o coração
Sossegasse no peito.
Mas vou perdendo o jeito
De cantar
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.

Miguel Torga
(1907-1995)
Coimbra, 12 de Outubro de 1974


nota - uma semana depois de eu nascer Miguel Torga escreveu este poema... se ele soubesse o sentido que o mesmo faz no meu espírito hoje...

05 junho 2010

Brinquedo

A propósito de uma acção de formação em que as colaboradoras deste “4.º que sente” participaram, fica um poema de Miguel Torga.
Lembro, com muita satisfação, que o formador recorreu (pelo menos em três momentos diferentes) à poesia para exemplificar o seu ponto de vista. Fico contente, pois claro que fico contente.

Brinquedo

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.
O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.
Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.
Miguel Torga

16 junho 2008

Exaltação

Venha!
Venha uma pura alegria
Que não tenha
Nem a senha
Nem o dia!

Abra-se a porta da vida
Sem se perguntar quem é!
E cada qual que decida
Se quer a lama aquecida
No lume da nova fé.

Venha!
Venha um sol que ninguém tenha
No seu coração gelado!
Venha
Uma fogueira de lenha
De todo o tempo passado!

Miguel Torga
in Libertação, 4.ª edição, Coimbra, 1978, pg.16

Fotografia de Nuno Abreu

10 fevereiro 2008

Dilema


Fotografia: Luís Lobo Antunes
DILEMA
É uma voz que me chama e me defende:
- Vem…; mas não venhas…; cada sonho é
Tanto mais vivo quanto mais se estende
A dura rota que nos leva ao pé.

E eu ouço a voz que prega no deserto
E não paro nem volto; apenas sinto
Que, se chego, desperto
E, se não chego, minto.

Miguel Torga
in Libertação, 4.ª edição, pg.9