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19 outubro 2021

nove anos sem ele

 


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
Manuel António Pina
in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

20 outubro 2012

Manuel António Pina

Amor como em casa



Regresso devagar ao teu

sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que

não é nada comigo. Distraidíssimo percorro

o caminho familiar da saudade,

pequeninas coisas me prendem,

uma tarde no café, um livro. Devagar

te amo e às vezes depressa,

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa,

compro um livro, entro no

amor como em casa.


Manuel António Pina

in “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”

A regra do jogo edições, 1974, pg. 34

01 julho 2011

No Dia Mundial das Bibliotecas - Na biblioteca

Eu sei que a biblioteca é um lugar virado para fora, mas agrada-me esta imagem da mesma, já à noite, virada para dentro, com o poema, na solidão, a cantar:

NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’

MANUEL ANTÓNIO PINA
In Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal,
Assírio & Alvim, 2011