15 agosto 2021

tempo e silêncio neste quarto

"Nada tão silencioso como o tempo

no interior do corpo. Porque ele passa

com um rumor nas pedras que nos cobrem,

e pelo sonoro desalinho de algumas árvores

que são os nossos cabelos imaginários.

Até nas íris dos olhos o tempo

faz estalar faíscas de luz breve.


Só no interior sem nome do nosso corpo

ou esfera húmida de algum astro

ignoto, numa órbita apartada,

o tempo caladamente persegue

o sangue que se esvai sem som.

Entre o princípio e o fim vem corroer

as vísceras, que ocultamos como a Terra.


Trilam os lábios nossos, à semelhança

das musicais manhãs dos pássaros.

Mesmo os ouvidos cantam até à noite

ouvindo o amor de cada dia.

A pele escorre pelo corpo, com o seu correr

de água, e as lágrimas da angústia

são estridentes quando buscam o eco.


Mas não sentimos dentro do coração que somos

filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,

foi depois de termos amado ontem.

O tempo é silencioso e enigmático

imerso no denso calor do ventre.

Guardado no silêncio mais espesso,

o tempo faz e desfaz a vida."

Fiama Pais Hasse Brandão

09 julho 2021

Biblioterapia - A leitura como terapia complementar - Carmen Zita Ferreira

 10 DE JULHO DE 2021 - 18H às 20H (Portugal Continental)

                                           14H às 16H (Brasil)



22 junho 2021

...

Que merda a nostalgia – nasce na respiração
E fica demoradamente. A sombra
Por dentro dos olhos, a baba, o sono,
O excesso de sensibilidade nos dentes
E a pele susceptível à roupa. Tão próxima
Que queima e gela em simultâneo, dor
Tão pequenina que nem acciona
As reacções fisiológicas de defesa.
Os detritos da festa acumulam-se,
A memória ateia distantes fogachos
De felicidades impossíveis, gomos
De saudade, uma pena sem coragem
Ou ternura. Que merda a nostalgia,
Horizonte falsificado por linhas
Rectas de solilóquio pensado,
Luz que não vem ou vem em excesso,
Carga de ombro inesperada no meio
Do campo deserto. Que braços se abrem
Para deter a espuma amarelada
Com que a maré polui o areal?
 
Rui Almeida



17 maio 2021

era um pássaro alto

 

Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.

Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.
Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.
Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.
Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.
Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.

                                        Artur do Cruzeiro Seixas

02 abril 2021

Entrevista na ABCPortugal Rádio - 02.04.2021

No Dia Internacional do Livro Infantil tive o prazer de ser entrevistada pela doce Paula Melo​, para a ABC Portugal Rádio.
Falámos de livros, de passado, de afetos, de covid-19 e de futuro. Espero que gostem tanto de ouvir como eu gostei de estar com a Paula. Obrigada!

22 janeiro 2021

Amanda Gorman

 

AMANDA GORMAN, poema dito na tomada de posse do presidente Joe Biden, tradução de CARLOS CAMPOS
A MONTANHA QUE ESCALAMOS
Quando chega o dia, perguntamo-nos,
onde podemos encontrar luz nesta sombra sem fim?
A perda que carregamos,
a travessia de um mar tão longo assim...
Enfrentámos a besta de frente
Aprendemos que a paz não é silente
E que as normas e conceitos do que é justo
Nem sempre são justiça
E ainda assim o amanhecer é nosso
antes de o sabermos
De algum modo nós fazemos
De algum modo, nós resistimos e testemunhamos
uma nação que não está quebrada
mas apenas inacabada.
Somos os sucessores de um país e de um tempo
em que uma menina negra magrinha
descendente de escravos e criada por uma mãe solteira
pode sonhar tornar-se presidente
apenas para se encontrar recitando para um.
E sim, estamos longe de ser polidos
longe da pureza
mas isso não significa que estejamos
a esforçar-nos para formar uma união perfeita
Estamos a esforçar-nos para formar uma união com um propósito
Para compor um país comprometido com todas as culturas,
cores, personagens e
condições do homem
E então levantamos os nossos olhares
não para quem está entre nós
mas para quem está diante de nós
Acabamos com a divisão porque sabemos
que, para colocar o nosso futuro em primeiro lugar,
devemos primeiro por de lado as nossas diferenças
Depomos as nossas armas
para que possamos estender os nossos braços
uns para os outros
A ninguém desejamos mal, a todos desejamos harmonia
Que o mundo diga pelo menos estas verdades:
Que mesmo quando sofremos, crescemos
Que mesmo em sofrimento, tivemos esperança
Que mesmo cansados, tentámos
Que estaremos para sempre ligados, vitoriosos
Não porque nunca mais conheceremos a derrota
mas porque nunca mais semearemos a divisão
As Escrituras dizem-nos para imaginar
que todos devem sentar-se à sombra da sua videira e figueira
E ninguém lhes causará medo
Se quisermos viver o nosso próprio tempo
Então a vitória não estará na lâmina que brandirmos
Mas em todas as pontes que construirmos
Essa é a promessa de clareira
A montanha que escalamos
Se ousamos
É porque ser americano é mais do que um orgulho que herdamos,
é o passado de que fazemos parte
e o modo como o reparamos
Vimos uma força que destruiria nossa nação
ao invés de a partilhar
Destruiria o nosso país se significasse adiar a democracia
E esse esforço quase teve sucesso
Mas embora a democracia possa ser periodicamente adiada
nunca pode ser permanentemente derrotada
Nesta verdade
nesta fé nós confiamos
Porque enquanto tivermos os olhos no futuro
a história olhará por nós
Esta é a era da redenção justa
Tememos quando começou
Não nos sentíamos preparados para ser os herdeiros
de uma hora tão terrível
mas no íntimo encontrámos a força
para escrever um novo capítulo
Para oferecer esperança e risos a nós mesmos.
Enquanto antes perguntávamos,
como poderíamos prevalecer sobre a catástrofe?
Agora nós afirmamos
Como pode a catástrofe prevalecer sobre nós?
Não vamos marchar de volta para o passado
mas para o que deve ser
Um país ferido, mas inteiro,
benevolente, mas ousado,
feroz e livre.
Não seremos mandados para trás
ou barrados pela intimidação
porque sabemos que a nossa omissão e inércia
será a herança da próxima geração
Os nossos erros serão os seus fardos
Mas uma coisa é certa:
Se fundirmos misericórdia com poder,
e o poder com o Direito,
então o amor será o nosso legado
e mudará o destino dos nossos filhos
Deixemos para trás um país
melhor do que aquele que nos deixaram
Em cada respiração do meu peito de bronze,
Ergueremos este mundo ferido para um mundo maravilhoso
Erguer-nos-emos das montanhas douradas do oeste,
Erguerer-nos-emos do nordeste varrido pelo vento,
onde nossos antepassados fizeram a revolução pela primeira vez
Erguer-nos-emos das cidades junto aos lagos dos estados do centro-oeste,
Erguer-nos-emos do sul queimado pelo sol
Reconstruiremos, reconciliaremos, recuperaremos
e em cada canto conhecido de nossa nação
e em cada esquina do nosso país,
o nosso povo diverso e belo surgirá,
batido e belo.
Quando chega o dia, saímos da sombra,
com vigor e sem medo
O novo amanhecer floresce à medida que o libertamos
Pois há sempre luz,
se tivermos a coragem para a ver
se tivermos coragem para a ser.
*
THE MOUNTAIN WE CLIMB
When day comes we ask ourselves,
where can we find light in this never-ending shade?
The loss we carry,
a sea we must wade
We've braved the belly of the beast
We've learned that quiet isn't always peace
And the norms and notions
of what just is
Isn't always just-ice
And yet the dawn is ours
before we knew it
Somehow we do it
Somehow we've weathered and witnessed
a nation that isn't broken
but simply unfinished
We the successors of a country and a time
Where a skinny Black girl
descended from slaves and raised by a single mother
can dream of becoming president
only to find herself reciting for one
And yes we are far from polished
far from pristine
but that doesn't mean we are
striving to form a union that is perfect
We are striving to forge a union with purpose
To compose a country committed to all cultures, colors, characters and
conditions of man
And so we lift our gazes not to what stands between us
but what stands before us
We close the divide because we know, to put our future first,
we must first put our differences aside
We lay down our arms
so we can reach out our arms
to one another
We seek harm to none and harmony for all
Let the globe, if nothing else, say this is true:
That even as we grieved, we grew
That even as we hurt, we hoped
That even as we tired, we tried
That we'll forever be tied together, victorious
Not because we will never again know defeat
but because we will never again sow division
Scripture tells us to envision
that everyone shall sit under their own vine and fig tree
And no one shall make them afraid
If we're to live up to our own time
Then victory won't lie in the blade
But in all the bridges we've made
That is the promise to glade
The hill we climb
If only we dare
It's because being American is more than a pride we inherit,
it's the past we step into
and how we repair it
We've seen a force that would shatter our nation
rather than share it
Would destroy our country if it meant delaying democracy
And this effort very nearly succeeded
But while democracy can be periodically delayed
it can never be permanently defeated
In this truth
in this faith we trust
For while we have our eyes on the future
history has its eyes on us
This is the era of just redemption
We feared at its inception
We did not feel prepared to be the heirs
of such a terrifying hour
but within it we found the power
to author a new chapter
To offer hope and laughter to ourselves
So while once we asked,
how could we possibly prevail over catastrophe?
Now we assert
How could catastrophe possibly prevail over us?
We will not march back to what was
but move to what shall be
A country that is bruised but whole,
benevolent but bold,
fierce and free
We will not be turned around
or interrupted by intimidation
because we know our inaction and inertia
will be the inheritance of the next generation
Our blunders become their burdens
But one thing is certain:
If we merge mercy with might,
and might with right,
then love becomes our legacy
and change our children's birthright
So let us leave behind a country
better than the one we were left with
Every breath from my bronze-pounded chest,
we will raise this wounded world into a wondrous one
We will rise from the gold-limbed hills of the west,
we will rise from the windswept northeast
where our forefathers first realized revolution
We will rise from the lake-rimmed cities of the midwestern states,
we will rise from the sunbaked south
We will rebuild, reconcile and recover
and every known nook of our nation and
every corner called our country,
our people diverse and beautiful will emerge,
battered and beautiful
When day comes we step out of the shade,
aflame and unafraid
The new dawn blooms as we free it
For there is always light,
if only we're brave enough to see it
If only we're brave enough to be it

31 dezembro 2020

ainda

"Não te rendas, ainda estás a tempo

De alcançar e começar de novo,

Aceitar as tuas sombras,

Enterrar os teus medos,

Libertar o lastro,

Retomar o voo.


Não te rendas que a vida é isso,

Continuar a viagem

Perseguir os teus sonhos,

Destravar o tempo,

Remover os escombros,

e destapar o céu.


Não te rendas, por favor não cedas,

Mesmo que o frio queime,

Mesmo que o medo morda,

Mesmo que o sol se esconda,

E se cale o vento,

Ainda há fogo na tua alma

Ainda há vida nos teus sonhos.


Porque a vida é tua e teu também o desejo

Porque o quiseste e porque eu te quero

Porque existe o vinho e o amor, é certo.

Porque não há feridas que não cure o tempo.


Abrir as portas,

Tirar os ferrolhos,

Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o repto,

Recuperar o riso,

Ensaiar um canto,

Baixar a guarda e estender as mãos

Abrir as asas

E tentar de novo,

Celebrar a vida e retomar os céus.


Não te rendas, por favor não cedas,

Mesmo que o frio queime,

Mesmo que o medo morda,

Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

Ainda há fogo na tua alma,

Ainda há vida nos teus sonhos

Porque cada dia é um começo novo,

Porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo."

MARIO BENEDETTI

traduzido por Inês Pedrosa

21 dezembro 2020

adenda (em forma de espelho)

 

"Aos vinte e cinco anos fui viajar. Estive em muitos países. Vivi alguns anos em várias das maiores cidades do mundo. Valeu a pena. Não há raças nem países. O homem é estúpido. E precisa que o amem, precisa amar. Um pouco repugnante, não? Mas pode-se amá-lo, assim repugnante."
Herberto Helder, "O Quarto", 
in Os Passos em Volta

12 novembro 2020

that's all, folks

Esta casa vai encerrar. Haverá poesia noutras estantes.

(fotografia via "citandocinema" no instagram, do filme "Masculino-Feminino", de Jean-Luc Godard, 1966)


 

10 novembro 2020

discos perdidos #3

"(...) l looked ahead

I'm sure I saw you there

You don't need me to tell you now

That nothing can compare

(...)

And on a loss still in my eyes

Shatter a necklace across your thigh

I might've lived my life in a dream

But I swear this is real..."

05 novembro 2020

Poema encontrado no fundo do balde do lixo

"Conheço todos os argumentos. 

Conheço todos os contra-argumentos. 

Conheço a futilidade da nossa vida. 

Conheço a fome, a sede, a ânsia. 

A alegria. 

O amor? Também. 

O desamor. A felicidade e a desgraça.

Tropeço cada dia na mesma pedra.

Tropeço cada dia na mesma pedra. 

Tropeço cada dia na mesma pedra. 

No fim já não se sabe

se há pedra ou se tropeçamos 

por hábito, por amor à arte,

porque não somos capazes de outra coisa. 

Porque o homem é um animal que tropeça.

Porque não somos capazes de outra coisa. "

Roger Wolfe

02 novembro 2020

discos perdidos #2

"I still watch you when you're groovin'
As if through water from the bottom of a pool
You're movin' without movin'
And when you move, I'm moved
You are a call to motion
There, all of you a verb in perfect view
Like Jonah on the ocean
When you move, I'm moved
When you move
I'm put to mind of all that I wanna be
When you move
I could never define all that you are to me
So move me, baby
Shake like the bough of a willow tree
You do it naturally
Move me, baby(...)"

08 outubro 2020

Louise Glück

"O tempo passou, transformou tudo em gelo.
Sob o gelo, o futuro bulia.
Se caísses lá dentro, morrias.

Era um tempo
de espera, de acção suspensa.

Eu vivia no presente, que era

a parte do futuro que podíamos ver.
O passado pairava sobre a minha cabeça,
como o sol e a lua, visível mas inalcançável.

Era um tempo
governado por contradições, como
Não sentia nada e
tinha medo.

O inverno esvaziou as árvores, voltou a enchê-las de neve.
Como eu nada sentisse, a neve caiu, o lago gelou.
Como se eu tivesse medo, permaneci imóvel;
o meu bafo era branco, uma descrição do silêncio.

O tempo passou, e uma parte dele tornou-se isto.
E outra parte evaporou-se simplesmente;
podíamos vê-la a pairar sobre as árvores brancas,
formava partículas de gelo.

Esperas a vida inteira pelo momento oportuno.
Depois o momento oportuno
revela-se acção consumada.

Eu via mover-se o passado, uma fila de nuvens a avançar
da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda,
consoante o vento. Por vezes

não havia vento. As nuvens pareciam
ficar onde estavam,
como uma pintura do mar, mais imóveis do que reais.

Por vezes o lago era um lençol de vidro.
Sob o vidro, o futuro murmurava,
modesto, convidativo:
tinhas de te concentrar para o não ouvires.

O tempo passou; chegaste a ver parte dele.
Os anos que levou eram anos de inverno;
ninguém lhes sentiria a falta. Por vezes

não havia nuvens, como se
as fontes do passado tivessem desaparecido. O mundo

perdera a cor, como um negativo; a luz atravessava-o
de lado a lado. Depois
a imagem apagava-se.

Por cima do mundo
só havia azul, azul em toda a parte."

Louise Glück - Prémio Nobel da Literatura 2020

Tradução – Rui Pires Cabral
in “Telhados de vidro” nº. 12, Editora Averno, Lisboa, 2009

02 outubro 2020

das horas em 2020

"Toda a gente passou horas

Em que andou desencontrado

Como à espera do comboio

Na paragem do autocarro"

Sérgio Godinho
Fotografia de Nuno Abreu (mais info. em https://olhares.com/quanto-tempo-o-tempo-tem-foto1320462.html#)

29 setembro 2020

(...)

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites, não dos meses,
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes, ah por vezes,
num segundo se evolam tantos anos."

David Mourão-Ferreira



18 setembro 2020

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

 

You are welcome to Elsinore

 

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas      portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

 

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

 

Mário Cesariny “Pena Capital”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1982