15 agosto 2021

tempo e silêncio neste quarto

"Nada tão silencioso como o tempo

no interior do corpo. Porque ele passa

com um rumor nas pedras que nos cobrem,

e pelo sonoro desalinho de algumas árvores

que são os nossos cabelos imaginários.

Até nas íris dos olhos o tempo

faz estalar faíscas de luz breve.


Só no interior sem nome do nosso corpo

ou esfera húmida de algum astro

ignoto, numa órbita apartada,

o tempo caladamente persegue

o sangue que se esvai sem som.

Entre o princípio e o fim vem corroer

as vísceras, que ocultamos como a Terra.


Trilam os lábios nossos, à semelhança

das musicais manhãs dos pássaros.

Mesmo os ouvidos cantam até à noite

ouvindo o amor de cada dia.

A pele escorre pelo corpo, com o seu correr

de água, e as lágrimas da angústia

são estridentes quando buscam o eco.


Mas não sentimos dentro do coração que somos

filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,

foi depois de termos amado ontem.

O tempo é silencioso e enigmático

imerso no denso calor do ventre.

Guardado no silêncio mais espesso,

o tempo faz e desfaz a vida."

Fiama Pais Hasse Brandão

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