29 janeiro 2019

(descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo)


A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?" e
 então tu olhaste depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Sérgio Godinho . Pré-histórias

19 janeiro 2019

(lodo e luar)


Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade
(Fundão, 19/01/1923-Porto, 13/06/2005)

14 janeiro 2019

23 novembro 2018

not me

Fotografia de Eduardo Barrento

#provadevida 3


#bandasonoradeviagem 33


Espera sempre dos momentos
Alguma coisa que ao passar
te leve mais além
A mais algum conhecimento
Mas não queiras salvamento
se faltar a alguém
Dança o teu azar
enterra-o por aí
Vem passar por dentro
da tempestade
Lança-te a voar
nada como abrir
as asas ao vento
e aprender a cair
Convence o próprio pensamento
a abrir as portas para passar
sem vetar ninguém
Cada Ser seu sentimento
e talvez o salvamento
nos salve a nós também

09 novembro 2018

(do silêncio)


A PALAVRA
“Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.”
Carlos Drummond de Andrade
In “Obra poética”, 4.º vol.
Publicações Europa-América, p. 250

(das palavras)

"Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.
Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, actos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.
E tudo é proibido. Então, falamos."
Carlos Drummond de Andrade,
In 'Boitempo'

02 novembro 2018

(hope)

"Hope there's someone
Who'll take care of me
When I die, will I go

Hope there's someone
Who'll set my heart free
Nice to hold when I'm tired

There's a ghost on the horizon
When I go to bed
How can I fall asleep at night
How will I rest my head

Oh I'm scared of the middle place
Between light and nowhere
I don't want to be the one
Left in there, left in there

There's a man on the horizon
When I go to bed
If I fall to his feet tonight
Will allow rest my head

So here's hoping I will not drown
Or paralyze in light
And godsend I don't want to go
To the seal's watershed

Hope there's someone
Who'll take care of me
When I die, will I go

Hope there's someone
Who'll set my heart free
Nice to hold when I'm tired"
Antony & The Johnsons

(deixa passar a vida)

Ode à Paz
"Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!"
Natália Correia,
in "Inéditos (1985/1990)"

(aí estou eu)

"Na vastidão do universo espiral
Nos segmentos de uma distância mito
Na proporção das metades e outras literaturas
Nessa convergência de encenações e de fotos
Aí estás método de alucinação e cicio
Aí estás no desnorte dos timbres
Nas extrapolações de portas para o infinito
Aí estás nas estradas de absinto
Metáfora de nenhures aprendizagem
de despedidas e encontros calmos
Recordações dessa tua infância forrada
de imagens , livros , apreensões do corpo
Engoles a ansiedade com a força de eurídice
Aludes ao passado como ulisses nos seus portos
És a infanta tangível do sol e das estrelas
Percorres os gestos na amplidão do esotérico
Musa dos locais de poesia e do encontro de palavras
Musa do infalível
Musa da emulsão
Infanta dos desertos sem continentes
nem cisnes nem prosódias nem cheiros
nem opacidades nem vertigens
nem ramagens nem jogos
nem urzes nem iludidos lírios
nem silêncios nem ventos
nem celeridade das pedras recordadas
nem as esquecidas nem as mais amadas"
Cecília Barreira

31 outubro 2018

(corpo)


Praia

Circular, o poema te rodeia:
Em voltas apertadas vem cercando
O teu corpo deitado sobre a areia.

Como outra abelha em busca doutro mel
Os aromas do jardim abandonado
Vai rasando o poema a tua pele.

José Saramago

11 outubro 2018

aforismos caseiros

A palavra proferida é como um único pingo de sangue a cair num copo de água: não volta atrás e não é por se dissolver que desaparece efetivamente.

18 setembro 2018

fly, baby, fly!

"I like digging holes and hiding things inside them | When I'll grow old, I hope I won't forget to find them"

24 agosto 2018

not banda sonora de viagem

 Note to oneself: We can't control the seas, but we can learn to ride the waves, and enjoy the ride

23 agosto 2018

ideias

Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…

Depois de escrever, leio…
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?

Álvaro de Campos, no dia 18/12/1934, em:
PESSOA, Fernando - Livro de versos. 3ª ed. Lisboa : Estampa, 1997. 436, [2] p.. ISBN 972-33-0892-4 . p. 343

06 julho 2018

“A febre das almas sensíveis”, de Isabel Rio Novo


Isabel Rio Novo nasceu no Porto em 1972. Doutorada em literatura comparada, é Docente no ensino superior de Escrita Criativa e outras disciplinas nas áreas da Literatura, Cinema e outras artes (sendo autora de diversas publicações académicas nessas áreas). Integrou os júris de vários prémios literários e de fotografia.
Os seus textos de ficção estão presentes em várias antologias, com destaque para a primeira coletânea de contos do Centro Mário Cláudio, “O País escondido”, publicado em 2016.
Em 2004, escreveu a narrativa fantástica “O Diabo Tranquilo”, a partir de poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues. Em 2005, viu o romance “A Caridade” distinguido com o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes. Em 2014, publicou o volume de contos “Histórias com Santos”. O romance “Rio do Esquecimento” foi finalista do Prémio LeYa, em 2015.
A febre das almas sensíveis”, também finalista do Prémio LeYa, em 2017, é o seu mais recente romance e a minha sugestão de leitura de hoje.
A ação desta narrativa tem lugar em Portugal, na primeira metade do século XX, uma época marcada pela tuberculose (a febre das almas sensíveis do título) como uma das principais causas de morte.
Ainda sem meios farmacológicos para combater a doença, o tratamento para esta doença resumia-se a isolamento em sanatórios, bons ares, sol, boa alimentação e descanso, tratamento este que muitas vezes não evitava a morte.
O Sanatório do Caramulo foi o maior e o mais famoso do país e é o cenário escolhido por Isabel Rio Novo neste brilhante romance.
Entre o edifício do Grande Sanatório do passado (onde o drama do jovem Armando se cruza com o dos outros pacientes), do presente (visitado por uma rapariga que coleciona histórias de escritores que padeceram daquele mal) e as páginas escritas por “R. N.”, movem-se almas de todos os tempos: Eduardo, Natália, Carolina e Ernest, mas também Cesário Verde, Júlio Dinis e António Nobre.
Sendo fiel ao registo histórico (sustentado em toda a intensa investigação realizada pela autora) este romance foge à rigidez e ao formalismo de que padecem alguns romances históricos.
Com um ambiente fantástico a que a autora já nos habituara (em “O Diabo Tranquilo” e no “Rio do Esquecimento”), o romance “A febre das almas sensíveis” apresenta-nos Isabel Rio Novo não como uma promessa, mas sim como um caso muito sério na Literatura Portuguesa contemporânea.
Acreditem em mim!