22 fevereiro 2013

se cantasse

Se cantasse, talvez o coração
Sossegasse no peito.
Mas vou perdendo o jeito
De cantar
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.

Miguel Torga
(1907-1995)
Coimbra, 12 de Outubro de 1974


nota - uma semana depois de eu nascer Miguel Torga escreveu este poema... se ele soubesse o sentido que o mesmo faz no meu espírito hoje...

12 fevereiro 2013

"Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
Álvaro de Campos

14 novembro 2012

ondjaki


“um homem é feito do que planifica e do que vai sentindo. de correntes de ferro que o prendem ao chão e de correntes de ar que lhe atravessam o corpo em ecos de poesia.
verdade e urgência.”
Ondjaki
in “Os Transparentes”
Ed. Caminho, 2012, pg.206

07 novembro 2012

CANÇÃO DE OUTONO

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
 

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
 

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

 
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

 Cecília Meireles
Fotografia de João Baltazar

20 outubro 2012

Manuel António Pina

Amor como em casa



Regresso devagar ao teu

sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que

não é nada comigo. Distraidíssimo percorro

o caminho familiar da saudade,

pequeninas coisas me prendem,

uma tarde no café, um livro. Devagar

te amo e às vezes depressa,

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa,

compro um livro, entro no

amor como em casa.


Manuel António Pina

in “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”

A regra do jogo edições, 1974, pg. 34

21 setembro 2012

um entre os mais

«A terceira miséria é esta, a de hoje.


A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E, ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua.»

HÉLIA CORREIA,

in "A Terceira Miséria", Relógio d'Água, Fev. 2012.

fotografia de David Fonseca

era esse o teu sorriso



Tenho um sorriso fechado na palma da minha mão.
Sorriso que foi achado caído no meio do chão.
Um sorriso que era vento desenrolado do azul
em que as minhas velas pandas se enfunavam para o Sul,
rumo a qualquer fim do mundo!

Uma ilha tropical onde o meu corpo confundo
com vento suor e sal. Era esse o teu sorriso;
o sorriso que me davas quando os teus olhos nos meus
eram dois potros com asas.

À tua espera na praia fiquei pela tarde fora,
no alto daquele rochedo onde um minuto é uma hora!
E não vi o teu sorriso surgir da areia ou do mar.
Nem tive um porto de abrigo...
Nem foste um barco a chegar.

Se me disseres que morreste não acredito. Não posso!
Andavas sempre comigo e o teu sorriso era o nosso...
Hoje guardo o teu sorriso fechado na minha mão...
A contrastar com o siso que trago no coração.

14 setembro 2012

papa a papa

As alunas das doroteias

comem todas as manhãs

uma loura papa de aveia

e nisto são meninas cristãs.



Mas para que não conste que estas florinhas

são antropófagas e pagãs,

para que se não diga que elas comem

o Santo Padre todas as manhãs,



uma freira a quem nada escapa

e que depois de morta vai ser santinha

ensinou-lhes que em vez de papa

elas devem dizer farinha.



Natália Correia (1923-1993)

in Poesia Completa, Ed. Dom Quixote, pg. 55