08 julho 2011

words

“It isn’t the color red that takes the place of the word red,

but the gesture that points to a red object
Wittgenstein
,

The Big Typescript

05 julho 2011

O Bicho-de-sete-cabeças no PNL


“O Bicho-de-sete-cabeças – História de uma eleição democrática” faz parte da lista de livros recomendados pelo PNL – Plano Nacional de Leitura.
(Livro recomendado para apoio a projectos relacionados com Cidadania para os 3º, 4º, 5º e 6º anos de escolaridade).
Para consultar a lista, venham por aqui.

01 julho 2011

No Dia Mundial das Bibliotecas - Na biblioteca

Eu sei que a biblioteca é um lugar virado para fora, mas agrada-me esta imagem da mesma, já à noite, virada para dentro, com o poema, na solidão, a cantar:

NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’

MANUEL ANTÓNIO PINA
In Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal,
Assírio & Alvim, 2011

18 junho 2011

“os livros encontram os seus próprios leitores”


A vida não basta e isso fica provado cada vez que vamos à Livraria Arquivo, em Leiria. Há muito mais para além da vida. Há a arte, há literatura, há tudo o que contradiz o tic-tac contínuo de cada segundo que passa.
A frase do título deste post é de António Manuel Pina. Com ele na foto estão Madalena Matoso, Afonso Cruz, Luís Mourão e Álvaro Romão. Há muito tempo que não estava num lugar com tanta genialidade por metro quadrado.
Comecei por apontar as frases que cada um dizia e que tinha a certeza de que quereria recordar… Desisti. Eram muitas frases, para tão pouca velocidade de registo.
Fica esta, a do título, que foi proferida a propósito da eterna questão de haver ou não livros “próprios” para crianças.
As outras ficam “apenas” na memória.

14 junho 2011

swim with the current and float away



Down by the river by the boats

Where everybody goes to be alone

Where you wont see any rising sun

Down to the river we will run


When by the water we drink to the dregs

Look at the stones on the riverbed

I can tell from your eyes

You've never been by the riverside


Down by the water the riverbed

Somebody calls you somebody says

swim with the current and float away

Down by the river every day


Oh my God I see how everything is torn in the river deep

And I don't know why I go the way

Down by the riverside


When that old river runs past your eyes

To wash off the dirt on the riverside

Go to the water so very near

The river will be your eyes and ears


I walk to the borders on my own

Fall in the water just like a stone

Chilled to the marrow in them bones

Why do I go here all alone

13 junho 2011

um grande barulho ao contrário


Andei a abrir “ao calhas” (essa belíssima expressão) os livros de poesia do Fernando Pessoa que tenho cá por casa (nota mental: organizar todas as minhas estantes por temas/autores um destes dias).
A marcar uma página, um postal editado pela Som da Tinta, em 2001, com um desenho do poeta, feito a tinta preta por Mário Alberto (quem conhece a colecção de postais da Som da Tinta sabe do que estou a falar).
Queria deixar aqui um poema de Fernando Pessoa, hoje, no 123.º aniversário do seu nascimento. É esse mesmo, que estava marcado, sei lá bem desde quando, que aqui vai ficar. Destacarei os versos que no livro estão sublinhados a lápis de carvão.

Ali não havia electricidade.
Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler –
A Bíblia, em português, porque (coisa curiosa) eram protestantes.
E reli a Primeira Epístola aos Coríntios.

Em torno de mim o sossego excessivo das noites de província
Fazia um grande barulho ao contrário,

Dava-me uma tendência do choro para a desolação.

A Primeira Epístola aos Coríntios…
Reli-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima
E um grande mar de emoção chorava dentro de mim…

Sou nada…
Sou uma ficção…
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
“Se eu não tivesse a caridade”…
E a soberana voz manda, do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma fica livre…
“Se eu não tivesse a caridade”…
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!

20-12-1934
Álvaro de Campos

In “Poemas de Álvaro de Campos”
Ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1992, pg.142

30 maio 2011

curiosos à vista...



Convido-vos a visitar um sítio especial. É o blog dos alunos da EB1/JI de Abrunheira - Sintra, do 4º ano, turma F.
Este blog tem o objectivo de divulgar as actividades que a turma desenvolve na sala de aula. Partilharam em Março e Abril os trabalhos que realizaram à volta do livro “O Bicho-de-sete-cabeças – História de uma eleição democrática”, trabalhos esses que transformaram em livro de turma.
Fiquei surpreendida com muitos dos comentários que iam sendo feitos à volta da história e com a qualidade da abordagem ao livro realizada.
Estão tão curiosos como eu estava? Então sigam por aqui, que estes curiosos estão à vista.

25 maio 2011

despalavrear

inscrição

inchaço do coração
facilita o despalavrear.
a liberdade pode advir
de uma veia.
com sangue também
se reescreve a vida.
o suicidado foi um apressado
para desconhecimentos.
a morte
ela é que espera por nós.
na vida pedincho
reindagação de cheirares:
em continuado aquestionamento.
a despalavreação
pode acrescer de uma vida.

Ondjaki
“Há prendisajens com o xão”
Ed. Caminho, 2002, pg.20


Nota do autor em “Outros convidados ou descoisas (de z a a)”, na pg. 63 do mesmo livro:
inchaço do coração: basta uma lágrima para infectá-lo assim”.

banda sonora de viagem 11#


"Leave the pity and the blame
For the ones who do not speak
You write the words to get respect and compassion
And for posterity
You write the words and make believe
There is truth in the space between."

30 abril 2011

... and everybody goes “Awww"

“The only people for me are the mad ones,
the ones who are mad to live,
mad to talk,
mad to be saved,
desirous of everything at the same time,
the ones who never yawn or say a commonplace thing,
but burn,
burn,
burn,
like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars
and in the middle you see the blue centerlight pop
and everybody goes “Awww!”

Jack Kerouac

28 abril 2011

Abat-jour



Fotografia de Stanislav Istratov

Abat-jour

A lâmpada acesa
(outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.

No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.

E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.

Bem sei… era dia
E longe de aqui…
Quanto me sorria
O que nunca vi!

E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar…

Fernando Pessoa (28-2-1929)
In “Poesia 1918-1930”,
Ed Assírio & Alvim, 2005, pg. 319