30 janeiro 2010

chico-espertismo

Hoje lembro a semana de todos os acontecimentos, de todas as sensações, de todos os sentimentos, em cascata vividos.
A propósito de isto e depois de isto e também de outro acontecimento da semana que hoje termina (sobre o qual não quero escrever aqui) transcrevo as palavras do filósofo José Gil, no livro “Em busca da identidade – o desnorte” (Lisboa, Relógio D’Água Ed., 2009, pg. 32/33) :

“O chico-esperto infringe a lei como se estivesse a cumpri-la, como se fosse uma boa partida sem consequências de maior. (…) À acusação que o pode tornar um alvo da autoridade porque cometeu um delito opõe-se a força da conivência dos costumes, do «direito consuetudinário» que se formou na cabeça dos nossos compatriotas e que aprova secretamente o chico-espertismo. (…) O chico-espertismo, por ser tão generalizado e penetrar tantos domínios, desliza facilmente para a corrupção e para a acção criminosa.”

A mim, o que mais me impressiona é o outro partir do princípio que, de tão generalizado, o chico-espertismo é a atitude de todos os portugueses. Ora, tal não corresponde à verdade.
Ofende-me aquele que presume que o outro (sem nada ter feito para tal) é um chico-esperto. Ofende-me aquele que toma atitudes de manipulação em nome de outro, sem que isso tenha sido solicitado, só porque lhe parece que o chico-espertismo é universal. A este nível, ser habitual, rotineiro e usual, para mim, nada justifica.
E mais não digo.

18 janeiro 2010

“(As) letras com(o) poesia” II

Vitorino A. Ventura, na Biblioteca Municipal de Ourém, no passado dia 16 de Janeiro, numa fotografia de Aurélia Madeira.
Foi a primeira sessão dos (Con)tributos de 2010. Uma sessão interessante que deixa no ar a vontade de voltar à BMO e aos "contributos" que por lá forem passando, de voltar ao livro de Vitorino Ventura (e às suas leituras das letras/poesias que nele analisa) e de voltar às músicas ouvidas também por lá.
Já a seguir uma das minhas preferidas.



13 janeiro 2010

(As) letras com(o) poesia




Os (Con)tributos’2010, na Biblioteca Municipal de Ourém, começam já em Janeiro e na minha opinião, com um interessantíssimo tema: As poéticas do pop/rock em Portugal. Vamos ouvir músicas de poetas portugueses, interpretadas por grupos portugueses. Seremos convidados por Vitorino Almeida Ventura a escutar o texto/poema de cada canção e a procurar nele as funções da obra de arte. A sessão está agendada para 16 de Janeiro (Sábado), pelas 17h. Apresento agora algumas informações sobre o autor convidado e a obra que vem apresentar. Apareçam!




Vitorino A. Ventura, Licenciado em Direito, na UCP e em Literaturas Modernas, na variante de Estudos Portugueses, na UAL, não concluiu, todavia, o Curso de Análise e Composição do Conservatório de Música do Porto. Como voz do grupo U Nu, viu editado:
– A nova portugalidade, Numérica, 1994.
– O regresso dos diabos, Yucca Tree Records, 2000.
Já deu formação em acções para Docentes no Centro de Formação da Maia e de Valongo, entre 2003 e 2005, sobre a lírica pop/rock. Foi convidado, sobre o mesmo tema, a dar um Curso de Verão na Universidade Católica do Porto, em 2008 e 2009.
Paralelamente, já foi formador de Adolescentes, nas Bibliotecas Municipais de Carrazeda de Ansiães, em 2007 e 2008, Gondomar e Tavira, em 2009, estando uma nova formação prevista para a Biblioteca de Almeida Garrett, no Porto.
A convite de António Sérgio, moderou no Festival Super Bock Super Rock a conferência “O futuro da música passa pelos músicos?”, em 2001.
Ainda sobre as Poéticas do Rock, a convite de Fernando Guerreiro e Golgona Anghel, conferenciou na Faculdade de Letras de Lisboa, em Abril de 2009.
Finalmente, no domínio da ficção, publicou:
– Da Cidade neste Corpo (Brasília Editora, 1989).
– Memórias de Ansiães, vol. 2 (audEo, 1998).
– Crónicas de Sancho Pança (Afrontamento, 2007).

Acerca do livro “(As) letras com(o) poesia”
“(As) letras com(o) poesia” (o melhor da pop/rock em Portugal), primeiramente publicado pela Objecto Cardíaco, em 2006, com reedição pela editora Afrontamento, em 2009, constitui-se como um ensaio poético sobre a lírica de António Avelar de Pinho (Banda do Casaco), JP Simões (Belle Chase Hotel), Carlos Tê (Clã), Rui Reininho (GNR), Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta), Manel Cruz (Ornatos Violeta), Sérgio Godinho e Regina Guimarães (Três Tristes Tigres), que, em muito do produzido, podiam entrar pela porta maior da poesia, nas universidades mesmo.A ideia do livro é levar os participantes, numa espécie de Plano Nacional de Literatura Marginalizada, a escutar (d)o micro-texto linguístico (normalmente, oculto), na canção pluridimensional, uma vez que, como referiu Umberto Eco, in Apocalípticos e Integrados, estão lá todas as funções que Charles Lalo viu na melhor obra de arte: diversão, catarse, técnica, idealização e reforço ou duplicação.

12 janeiro 2010

Capitão Romance



Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou
E ao fim nao toquei em nada
Do que em mim tocou

11 janeiro 2010

Olga Maniés

Há surpresas agradáveis na nossa vida. Conhecer a pintura de Olga Maniés, para mim, foi uma delas.
De 09 a 31 de Janeiro poderão visitar uma exposição da sua pintura, na Galeria Municipal de Ourém.
Natural de Tomar e a residir em Seiça, a autora assume-se como uma “apaixonada pela pintura”. No seu blog pessoal, diz que pintar a transporta para “um mundo mágico onde a expressão de sentimentos acontece sem condicionamentos ou reservas, sem limites de tempo ou espaço”.
Apoiada pelo Movimento Artístico de Coimbra, Olga Maniés tem participado em algumas exposições colectivas e individuais em Portugal e Espanha.
Técnicas: Óleo, aguarela e acrílico. Entrada Livre.
Horário da Galeria: Terça a Domingo, 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00.

Ary dos Santos

Homem de ideias fortes, José Carlos Ary dos Santos está imortalizado na sua vasta obra poética e também nas vozes de cantores como Amália, Carlos do Carmo, Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de Carvalho e José Afonso.
Poderão visitar uma exposição sobre o poeta, na Biblioteca Municipal de Ourém, durante o mês de Janeiro em curso.
De segunda a sexta, das 09h00 às 18h00 e no Sábado, dia 16, das 16h00 às 19h00.

03 janeiro 2010

2010

"Um amor, uma carreira, uma revolução:
outras tantas coisas que se começam
sem saber como acabarão"

Jean-Paul Sartre

08 dezembro 2009

Segredos

Corolário de pequenas pétalas alvas,
translúcidas e perfumadas
guardo em secreto esconderijo
longe de piratas amantes de estados de alma perdidos
nos mares vendidos a litro.

Corolário de grandes ilusões coloridas,
opacas e oprimidas
guardo em baú com cadeado,
bem fechado,
perto do meu leito diário e certo
de colchão de segredos recheados.

Quem os não tem guardados,
semeados em terra fértil,
crescendo a cada dia?

Carmen Zita Ferreira
in Jogo de Espelhos,
Ed. Som da Tinta, 2004

04 dezembro 2009

Um olhar científico sobre as aparições de Fátima

No âmbito da actividade (con)tributos será feita a apresentação do Livro: “Videntes e Confidentes, um estudo sobre as aparições de Fátima” da autoria de Aurélio Lopes. A apresentação estará a cargo do Dr. Ernesto Jana, no próximo dia 05 de Dezembro, pelas 17horas, na Biblioteca Municipal de Ourém (Largo Professor Egas Moniz, n.º 12).

Biografia do autor: Investigador e professor do ensino superior, Aurélio Lopes, tem-se debruçado, especialmente, sobre a Antropologia do Sagrado, nomeadamente nas vertentes relacionadas com a religiosidade popular.
Conferencista e articulista em diversos periódicos regionais e nacionais, é autor de mais de duas dezenas de estudos publicados de que se destacam Religião Popular no Ribatejo (1999), O Percurso de Selene: A Lua na Tradição Popular (1996), Tempo de Solstícios (1998), A Face do Caos; Ritos de Subversão na Tradição Portuguesa (2000), O B. I. das Mouras Encantadas (2004), Devoção e Poder nas Festas do Espírito Santo (2004), Bielhas i Chocalheiros na ne Praino Mirandés (2005), A Sagração da Primavera (2007), A Festa dos Bugios no Sobrado; Concelho de Valongo (2008) e A Reconstrução do Sagrado: Religião Popular nos Avieiros da Borda D’ Água (2009).
Actualmente é responsável pelo Observatório Cultura da Associação Civilis e coordenador da Colecção Raízes e Antropologia da Editora Cosmos.

Sinopse do livro: Os fenómenos que usualmente denominamos “aparições”, revestem-se de vicissitudes sociais e culturais multifacetadas, em que se movimentam diversos actores, tanto videntes e devotos, como responsáveis pelos processos de aceitação e integração mais ou menos canónica.
E se as eventuais etapas secundárias, sempre institucionalizadas, se revestem, já, de uma multivalência doutrinária que as respectivas conjunturas vão acarretando, os testemunhos primários, constituem quase sempre uma emanação directa das personalidades dos videntes, numa conjuntura cultural bem definida.
Poder-se-á dizer-se, assim, que as aparições constituem eclosões epifânicas decorrentes de determinadas condições sociais, assentes em catalisadores culturais específicos e tendo como elemento polarizador a personalidade (não perversa, nem patológica, mas singular no seu psiquismo) do respectivo vidente!
Singularidades na relação dos homens com Deus, constituem momentos marcados pelo excepcional; pelo prodigioso.
Momentos em que a relação normal se mostra insuficiente perante a excepcionalidade ou a gravidade da ocasião. Em que a divindade resolve atalhar os canais normais de comunicação e falar, directamente, com os Homens.
São, muitas vezes, mensagens de aviso e alerta, face a um desvio devocional ou comportamental, ou um institucional religioso que tende para a estagnação e formalização ou, para um domínio, cada vez maior, da letra da lei.
Tais hierofanias radicam em pressupostos vários (tanto estruturais como conjunturais) que na conexão socio-cultural imbricam necessariamente. Os tempos são normalmente de crise social, moral ou política. Os videntes são frequentemente pessoas simples, de formação cultural baixa, emotivos e impressionáveis, levando muitas vezes uma existência dura e boçal, quantas vezes sofrida, sem perspectivas de melhoria.
Para eles o mundo é, ainda, palco de uma luta entre o bem e o mal. Luta perpétua, em que o mal confere, de alguma forma, sentido ao bem, não obstante, dever ser periodicamente vencido (ou, pelo menos, contido) em sucessivos confrontos que antecipam o confronto final e, onde, cada um, é suposto ter um papel a desempenhar.
A aparição proporciona-lhes uma importante ruptura com o quotidiano. Uma importância que os resgata à banalidade prosaica da sua existência e confere, de alguma forma, uma razão de ser, ao seu sofrimento. Fátima, naturalmente, não foge à regra.

17 novembro 2009

Calendário - 2010



O Calendário Ilustrado 2010 da APCC - Associação para a Promoção Cultural da Criança vai ser lançado a 20 de Novembro com os jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias, ficando em banca durante duas semanas, onde poderá ser adquirido por 2,50 €.
É um calendário que contém ilustrações de Madalena Matoso.
De que melhor maneira se pode começar 2010, senão rodeados de beleza e de arte?
Está certo, temos também a boa música e a boa companhia. Não se pode negar esse facto.

13 novembro 2009

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"

11 novembro 2009

Dinossáurio carnívoro passou por Ourém



Notícia aqui.

Para os meus amigos de "longe", será mais um ponto a explorar numa próxima visita.

Para os de mais perto, 'bora lá à procura das pegadas dos carnívoros?

10 novembro 2009

Ode

Understand the things I say,

don't turn away from me,

'Cause I've spent half my life out there,

you wouldn't disagree.

Do you see me? Do you see?

Do you like me? Do you like me standing there?

Do you notice? Do you know?

Do you see me? Do you see me?

Does anyone care?

Unhappiness where's when I was young,

And we didn't give a damn,

'Cause we were raised,

To see life as fun and take it if we can.

My mother, my mother,

She hold me, she hold me, when I was out there.

My father, my father,

He liked me, oh, he liked me.

Does anyone care?

Understand what I've become, it wasn't my design.

And people ev'rywhere think, something better than I am.

But I miss you, I miss, 'cause I liked it,

'Cause I liked it, when I was out there.

Do you know this?

Do you know you did not find me. You did not find.

Does anyone care?

Unhappiness where's when I was young,

And we didn't give a damn,

'Cause we were raised,

To see life as fun and take it if we can.

My mother, my mother,

She hold me, she hold me, when I was out there.

My father, my father,

He liked me, oh, he liked me.

Does anyone care?

09 novembro 2009

nunca é demais falar das árvores felizes

Fotografia de Gonzales


Nunca é demais
falar dos braços que
percorrem corpos.
Das amêndoas em
flor. Das árvores
felizes. Nunca é
demais repetir a
beleza esfuziante.
E que fazer perante
o corpo que envelhece,
o sonho que se trai,
o perdão que não
houve; como
entender o outro
lado da fronteira
onde o medo e a
morte espreitam?

Cecília Barreira
in 7&10,
Europress, 2003, pg. 15

30 outubro 2009

novo horizonte

Fotografia de Nuno Abreu

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.


Sophia de Mello Breyner

26 outubro 2009



Mal nos conhecemos
inaugurámos a palavra “amigo!”.
“Amigo” é um sorriso de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão!

“Amigo” (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
“Amigo” é o contrário de inimigo!
“Amigo” é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.
“Amigo” é a solidão derrotada!
“Amigo” é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim, um espaço útil,
um tempo fértil,
“Amigo” vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill,
in “No Reino da Dinamarca”