20 outubro 2008

Nota de rodapé em conversa já esgotada

"Subterraneamente, não sei por que te chamei.
Durante alguns dias a noite escondia-se
– sem grande rigor é certo –
numa escrita do silêncio
inacessível, exalando eternidade
e outros instantes do efémero.
Subterraneamente, os dias acabaram
e os objectos transformaram-se
em saliva precária."

Cecília Barreira
Do mar grande e d'outras águas, Ed. Gama, 2006, pg. 68

18 outubro 2008

Foi o caso #1

Foto de Mondenkind

Refazer a folha


Falava-se na nobreza-tipo-musgo.
Falava-se em apetecer, por vezes (muitas vezes?), refazer a folha a alguém.
Falava-se…
Mas há aqueles que conseguem falar melhor do que os outros.
Foi o caso.
Deixo-vos a frase:

"Refazer pode ser interessante, se houver bagagem suficiente para isso.
É como reciclar: embora a nobreza dos materiais possa ser importante, todo o ênfase é posto nos resultados finais."

antónio f.

01 outubro 2008

Walls


Sometimes we put up walls,
not to keep people out,
but to see who cares enough to knock them down.

(autor desconhecido)



24 setembro 2008

Previsão do tempo num litoral incerto

Fotografia de Nuno Abreu


Anunciam-se chuvas,
que cairão formosas e seguras
sobre os telhados que de vidro forem.

Os outros, que de vidro não são,
podem ficar sossegados,
porque sobre eles as chuvas também cairão.

Anunciam-se ventos,
enlaces, casamentos,
festas de despedida
e rituais de iniciação.

Prevê-se a queda de pedras
vindas de todas as veredas
em movimentos antigos
de pura e total condenação.

Caída a noite as ondas
atingirão, animadas
os transeuntes desprevenidos
e escondidos na escuridão.

Madrugada fora naufrágios,
maremotos, maus presságios,
subida da temperatura e geadas:
Esta é a minha previsão.

Carmen Zita Ferreira
in Poiesis XVI - Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea.
Ed. Minerva, Lisboa, Junho de 2008, pg.48

18 setembro 2008

Oscar Wilde #2

Fotografia de Rita Santos
(a propósito de uma tentativa de homicídio mal sucedida, com recurso a engenho explosivo)

“Reconheceu que não havia vantagem em ir à Scotland Yard, porque aí parecia nunca se saber nada sobre os movimentos partidários da dinamite, senão depois de uma explosão.”
WILDE, Oscar. O crime de Lorde Artur Savile e outros contos. Ed. Relógio d’Água, Lisboa, 2007, pg. 31

“Os detectives ingleses são realmente os nossos melhores amigos e eu tenho reconhecido sempre que, confiando na sua estupidez, podemos realizar exactamente o que desejamos. Não podemos dispensar nenhum.”
Idem. Ibidem. pg. 33

“Relógios explosivos não são lá muito boa coisa para exportação estrangeira, porque mesmo que consigam passar sem dificuldades na Alfândega, o serviço de comboios é tão irregular que, por via de regra, explodem antes de atingir o seu verdadeiro destino.”
Idem. Ibidem. pg. 33
"(...) mas ficou a prova bem provada de que a dinamite, como força destruídora, quando sob controlo do mecanismo, é agente poderoso, se bem que pouco pontual."
Idem.Ibidem. pg.36

17 setembro 2008

Oscar Wilde #1

Este Verão li “O crime de Lorde Artur Savile e outros contos” (1891), de Oscar Wilde, numa edição da Relógio d’Água, de Junho de 2007.
Acho incrível como, passado mais de um século, Oscar Wilde consegue ser actual e usar, com uma mestria invejável, umas das mais poderosas armas, a ironia. Na verdade, para mim ler Oscar Wilde é não só um prazer, mas também uma oportunidade de aprender com quem realmente domina a arte da escrita.
Começo aqui uma série citações deste livro, que fui sublinhando e que, apesar de retiradas do contexto, são (na minha opinião) espelho do talento deste autor.
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“(…) na escadaria estavam de pé muitos reais académicos, disfarçados de artistas.”
WILDE, Oscar. O crime de Lorde Artur Savile e outros contos. Ed. Relógio d’Água, Lisboa, 2007, pg. 7
(parte final de descrição de uma sala onde decorria uma festa)
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"Trevor era pintor, coisa a que pouca gente escapa hoje em dia. Mas era também artista e os artistas são mais raros."
Idem. Ibidem. pg. 84

14 setembro 2008

Troca para marcar

Como tinha anunciado aqui, inscrevi-me numa onda de trocas, cujo resultado deveria apresentar hoje, dia 14 de Setembro.
O desafio era fazer um marcador para livros, no material que se quisesse, com uma ilustração/colagem nossa e uma frase ou excerto que nos tivesse marcado (indicando nome do livro e do autor).
Por sorteio, a parceira que me foi atribuída tem um blog que se chama Um quarto de fadas e toda esta experiência, a meu ver resultou muito bem.
Assim, este foi o marcador que enviei à Fada, com a seguinte frase de Mia Couto, no seu mais recente livro “Venenos de Deus e Remédios do Diabo”, da Editorial Caminho (pg. 98):
“O suficiente é para quem não ama. No amor só existem infinitos.”










Este foi o marcador que recebi da Fada, com a seguinte frase, de Clarissa Pinkola Estés, em “Mulheres que correm com os lobos”:
“Ela traz histórias e sonhos, palavras e canções, signos e símbolos. Ela é tanto o veículo quanto o destino.”













E finalmente, aqui vai a minha sugestão de dez livros para ler em 2008:

AUSTER, Paul. O livro das ilusões. Asa Editores, 4.ª edição, Lisboa, 2006.
COUTO, Mia. Venenos de Deus e Remédios do Diabo. Editorial Caminho, 1.ª edição, Lisboa, 2008.
GEDEÃO, António. Poemas escolhidos. Ed. João Sá da Costa, 10.ª edição, Lisboa, 2006.
GUSTAFSSON, Lars. A morte de um apicultor. Asa Editores, 2.ª edição, Lisboa 2001.
MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Dom Quixote, 23.ª edição, Lisboa, 2006.
MURAKAMI, Haruki. Sputnik, meu amor. Casa das letras, 6.ª edição, Lisboa, 2008.
SANTIS, Pablo de. A Tradução. Asa Editores, 1.ª edição, Lisboa, 2000.
SEPÚLVEDA, Luis. Crónicas do Sul. Asa Editores, 1.ª edição, Lisboa, 2008.
WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Relógio d’Água, Lisboa, 1998.
ZOLA, Émile. Thérèse Raquin. Círculo de Leitores, Lisboa, 1973.

Directamente para a Fada, quero agradecer o marcador e toda a simpatia revelada. A nossa “troca” marcou-me, realmente.
À Su, da Teia de Ariana, parabéns pela excelente ideia.

03 setembro 2008

Setembro


Fotografia de Nuno Abreu


Era Setembro
ou outro mês qualquer
propício a pequenas crueldades:
a sombra aperta os seus anéis.
Que queres tu ainda?
O sopro das dunas sobre a boca?
A luz quase despida?
Fazer do corpo todo
um lugar desviado do inverno?

Eugénio de Andrade
in Poesia, Ed. Fundação Eugénio de Andrade,
2.ª edição, 2005, pg.341

18 agosto 2008

Vaga mágoa




Paira à tona de água
uma vibração.
Há uma vaga mágoa
no meu coração.

Não é porque a brisa
ou o que quer que seja
faça esta indecisa
vibração que adeja;

Nem é porque eu sinta
uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta,
não sabe o que quer.

É uma dor serena,
sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...

Fernando Pessoa
in Poesia 1918-1930, Ed. Assírio & Alvim,

Lisboa, 2005, pg. 296

06 agosto 2008

Dê, vai ver que não dói nada




Desde 15 do passado mês de Julho que a AMI lançou ao público um projecto de recolha de óleos alimentares usados, que conta já com a participação de milhares de restaurantes, hotéis, cantinas, escolas, Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais.
A AMI dá com este projecto continuidade à sua aposta no sector do ambiente, como forma de actuar preventivamente sobre a degradação ambiental e sobre as alterações climáticas, responsáveis pelo aumento das catástrofes humanitárias e pela morte de 13 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
Os estabelecimentos que pretendam aderir, recebendo recipientes próprios para a deposição dos óleos alimentares usados, deverão telefonar gratuitamente para o número 800 299 300.

Para participar neste projecto da AMI:

- Junte o óleo alimentar que usa na sua cozinha numa garrafa de plástico e entregue-a quando estiver cheia num dos restaurantes aderentes. Os restaurantes estão identificados e a lista completa está disponível aqui (são já 5 os locais onde o poderá fazer no Concelho de Ourém, por exemplo).

Fonte: http://www.ami.org.pt/
Fundação AMI
Rua José do Patrocínio, 49 1949-008 Lisboa Tel. 218 362 100 Fax 218 362 199E-Mail: reciclagem@ami.org.pt

Troca para marcar


Estou inscrita numa "onda de trocas" bem interessante, na sequência de um desafio da teia de ariana. Eis os pormenores:


Tema: TROCA PARA MARCAR
Regras:
1) Fazer um marcador para livros, no material que se quiser,com uma ilustração/ colagem nossa e uma frase ou excerto que nos tenha marcado (indicando nome do livro e do autor) e assinar;
2) Acrescentar uma pequena lista de sugestões de livros para leitura de férias... ou sem ser de férias.


Inscrições: até dia 3 Agosto;
Divulgação dos parceiros: 4 de Agosto;
Prazo de envio dos marcadores de livros: até final do mês de Agosto;
Dia da postagem do que se enviou e recebeu, para todos, nos seus blogs: 14 de Setembro.


Os parceiros foram divulgados e por incrível que pareça, o sorteio ditou que o meu par tivesse um blog chamado um quarto de fadas. Vou tentar cumprir todas as regras... Prometo.

15 julho 2008

Regresso


Fotografia de Nuno Abreu

Regresso

Afasto-me do mar
que apaga minhas pegadas
sempre que dele me estou a afastar.
Ganha nova força
e sobe até à marginal
este velho conhecido que me atrai,
que me sussurra ao ouvido:
“Voltarás!
Essa pegada já se foi
mas outras um dia marcarás!”

É sábio o meu amigo.
E com frases sábias me encanta
enquanto limpa da areia meus pés
como se esta fosse uma sagrada manta.
Minhas marcas já ninguém vê.
Só o mar sabe que até ele desci.
No meu regresso só ele crê
pois só ele me sentiu por aqui.

Carmen Zita Ferreira
in Do mar grande e d’outras águas,
Gama Ed., 2006, pg.39

01 julho 2008

Verão

Fotografia de Nuno Lopes

O livro aberto esquecido na relva,
o sol mordido das amoras bravas,
a voz húmida e lenta dos rapazes,
os degraus por onde a sombra desce.


Ouço-as como se ouvisse chegar o verão,
seus inumeráveis dedos correm pelos dias
ou pelas noites com as águas dentro;
Ouço essas vozes, esse rumor de luzes
subir no escuro, tropeçar nos vidros,
com a manhã alta cair nas areias,
morder os muros, arder endoidecido.

Eugénio de Andrade
in Poesia, Ed. Fundação Eugénio de Andrade,
2.ª edição, 2005, pg.335