"Sentimos num mundo, pensamos e nomeamos num outro mundo; podemos estabelecer uma concordância entre ambos, mas não preencher o intervalo."
Marcel Proust(1871/1922)
Fotografia de Zé Diogo e Diamantino Jesus (DiDiArte)
Somos árvores só quando o desejo é morte. Só então nos lembramos que Dezembro traz em si a primavera. Só então, belos e despidos, ficamos longamente à sua espera.
Eugénio de Andrade in Poesia, Ed. Fundação Eugénio de Andrade, 2.ª edição, 2005, pg. 20
Recebi da Teia de Ariana um desafio: escolher seis (apenas seis) músicas que marcaram as nossas vidas. Quando estava a transcrever o poema e a ouvir a melodia da música do anterior artigo, percebi que, sim, essa (Postcards from Italy) seria uma das que colocaria na minha lista pessoal. E foi com grande alegria que reparei que, assim sendo, muitas outras ainda estarão para vir e tomar o seu lugar na minha lista de futuro. Gostei da ideia e decidi, finalmente, procurar as seis músicas que mais me marcaram até hoje. Qual seria o critério de escolha? As melhores, as mais perfeitas, as mais consagradas? Não. Decidi escolher aquelas que já me fizeram chorar, as que provocam no meu coração uma alegria que me faz (ainda hoje) querer pular, as que me arrepiam e as que transformaram o meu pequeno mundo. Assim sendo, aqui vai a lista, sem nenhuma música dos Beirut (ainda) e ordenada arbitrariamente:
- Por quem não esqueci – Sétima Legião; - Les Mystérieuses Cités D'Or (tema dos desenhos animados com o mesmo nome); - Shiny Happy People - R.E.M.; - Linger - The Cranberries; - They Dance Alone – Sting; - Noite de Verão – Trovante.
Devo dizer que à conta deste desafio já ri e já me fartei de chorar! Não quero de maneira alguma provocar tais sensações à Justine e à Tanita, mas é precisamente a elas que vou passar o desafio, por mera e sincera curiosidade.
Vai vazia esta alma Descarregada em seus porões, De tesouros, de sentimentos, De vozes e de emoções. Vai vazia esta nau Despojada de bandeira Com rumo de sem eira nem beira, Acompanhando, imóvel, A única voz solitária Do passado. O eco é a sua viagem. Não naufraga, Não nada. Não há termo para o deambular. Como vai vazia aquela alma. Como se arrasta aquela nau.
Susana Júlio "Do mar grande e d'outras águas". Ed. Gama, 2006, pg. 97
Há palavras que, em certos dias, fazem todo o sentido.
When I hold you in my arms And I feel my finger on your trigger I know nobody can do me no harm Because happiness is a warm gun, momma Happiness is a warm gun -Yes it is. Happiness is a warm, yes it is... Gun!
“Tudo o que é agradável na vida se baseia num retorno das coisas exteriores, que com regularidade se verifica. A alternância do dia e da noite, das estações do ano, das flores e frutos e o mais que de época para época se nos depara, para que possamos e devamos fruir, tudo isso é que verdadeiramente impulsiona a vida terrena. Quanto mais abertos estivermos a essas fruições, mais felizes nos sentimos.”
Goethe(Poesia e Verdade;13.º livro) citado em “O livro dos amigos”
por Hugo Von Hofmannsthal, ed. Assírio & Alvim, pg. 27.
" Sometimes I feel like I'm going insane Without the numbness or the pain so intense to feel Especially now it added up through the years And I, I taught myself how to grow Without any love and there was poison in the rain I taught myself how to grow Now I'm crooked on the outside, and the inside's broke"
Correm, com passos de gente que se atrasa, olhando o relógio, para a hora do suicídio. Correm, sob um sol que queima, abrasa, num torturar inquieto, novo e antigo.
Esbarram nos vultos que com eles se cruzam, fazendo parte de uma multidão sempre igual. Esbarram e quase nunca se olham temendo a pausa que impõe o reconhecimento do mal.
Parar é morrer e perder o barco que nos leva à margem onde o suicídio é feito, onde com a morte fazemos a cada dia um pacto.
E assim vamos correndo com pressa, na solidão que marca a diferença no meio de tanta gente que corre, todos os dias, para ganhar um pedaço de pão.
A palavra gatinha Sem nada por cima A palavra rompe Investe Perfura. Comprida a palavra perde-se Em redor da mesa reveste-se, organiza-se. A palavra precisa de ternura.
José Afonso in "José Afonso, textos e canções", Relógio D'água
Quero ser noutra vida mensageiro de emoções De elefantes, baleias, cais e canções Na preguiça do panda, na destreza do lince Vou abrir a Pandora onde Deus não existe Entre tudo e nada, saber quem sou
Quero ser noutra vida mensageiro de emoções De golfinhos e águias, do silêncio das águas Regressado aos sentidos e à razão dos bichos Dos espaços perdidos, na asa do condor No fundo do mar, saber quem sou
Quero ser noutra vida mensageiro de emoções Porta-voz de ondas, tradutor de ilusões
Ser menos ainda que um pequeno carreiro Descobrir o mistério do Universo inteiro Emprestar a vida, descobrir quem sou.
Bob: Can you keep a secret? I'm trying to organize a prison break. I'm looking for, like, an accomplice. We have to first get out of this bar, then the hotel, then the city, and then the country. Are you in or you out? Charlotte: I'm in. I'll go pack my stuff. Bob: I hope that you've had enough to drink. It's going to take courage.