Na última edição da TVCEF, a partir do minuto 22, até ao minuto 33, podemos ver a reportagem sobre a minha presença no Centro de Estudos de Fátima, no passado dia 26 de fevereiro.
Muito obrigado a todos os que tornaram este momento possível, em particular à Prof. Marlena, à Prof. Fátima, à Prof. Ivone e ao Prof. Jorge Gonçalves.
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01 março 2015
07 julho 2014
mar sonoro
Fotografia de Nuno Abreu
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen
21 abril 2014
"Dois dedos de conversa" - Carmen Zita Ferreira
Foi assim no Sarau Cultural'2014 do Centro de Estudos de Fátima, que tive o prazer de apadrinhar.
03 janeiro 2014
21 outubro 2013
Se me esqueceres (pablo neruda)
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
Pablo Neruda,
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
24 setembro 2013
Poema dum funcionário cansado
Poema dum funcionário cansado
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em
frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.
António Ramos Rosa
in O Grito Claro, 1958
Fotografia de Luís Silva
22 setembro 2013
mudança de estação
mudança
de estação
para
te manteres vivo – todas as manhãs
arrumas
a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o
mesmo fazes com a alma – puxas-lhe brilho
regas
o coração e o grande feto verde-granulado
deixas
o verão deslizar de mansinho
para
o cobre luminoso do outono e
às
primeiras chuvadas recomeças a escrever
como
se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada
de pousio – uma terra
necessitada
de águas de sons de afectos para
intensificar
o esplendor do teu firmamento
passa
um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam
o rosto que surge do mar – crepúsculo
donde
se soltaram as abelhas incompreensíveis
da
memória
luzeiros
marinhos sobre a pele – peixes
que
se enforcam com a corda de noctilucos
estendida
nesta mudança de estação.
Al
Berto
In «Horto de Incêndio» (poesia), colecção «peninsulares
/ literatura» (n.º 49),
Assírio
& Alvim, Lisboa, junho de 1997 (2.ª ed.), pg. 52fotografia de Nuno Abreu
18 março 2013
farol
Farol
Estará a pacífica luz do teu olhar
à minha espera nesta viagem?
Neste regresso outonal,
por entre ramos sinuosos
de negro decorados
estarão os teus braços a aguardar
o meu barco mutilado?
Saberei eu a âncora largar,
terei eu a necessária coragem?
Nesta revolta quase invernal,
por entre rumos ardilosos
de falsos brilhos adornados
encontrarei a tua luz neste mar
para me descobrir a salvo?
Estará teu espírito preparado
para assistir ao naufrágio
desta imprudente embarcação?
Será a visão do teu sereno aviso de perigo
neste insensato retorno,
a minha derradeira recordação?
Carmen Zita Ferreira
22 fevereiro 2013
se cantasse
Se cantasse, talvez o coração
Sossegasse no peito.
Mas vou perdendo o jeito
De cantar
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.
Miguel Torga
(1907-1995)
Coimbra, 12 de Outubro de 1974
nota - uma semana depois de eu nascer Miguel Torga escreveu este poema... se ele soubesse o sentido que o mesmo faz no meu espírito hoje...
Sossegasse no peito.
Mas vou perdendo o jeito
De cantar
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.
Miguel Torga
(1907-1995)
Coimbra, 12 de Outubro de 1974
nota - uma semana depois de eu nascer Miguel Torga escreveu este poema... se ele soubesse o sentido que o mesmo faz no meu espírito hoje...
20 fevereiro 2013
12 fevereiro 2013
07 novembro 2012
CANÇÃO DE OUTONO
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não
fiz.E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
Cecília Meireles
Fotografia de João Baltazar
20 outubro 2012
Manuel António Pina
Amor como em casa
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
in “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”
A regra do jogo edições, 1974, pg. 34
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
in “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”
A regra do jogo edições, 1974, pg. 34
21 setembro 2012
um entre os mais
«A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.»
HÉLIA CORREIA,
in "A Terceira Miséria", Relógio d'Água, Fev. 2012.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.»
HÉLIA CORREIA,
in "A Terceira Miséria", Relógio d'Água, Fev. 2012.
fotografia de David Fonseca
14 setembro 2012
papa a papa
As alunas das doroteias
comem todas as manhãs
uma loura papa de aveia
e nisto são meninas cristãs.
Mas para que não conste que estas florinhas
são antropófagas e pagãs,
para que se não diga que elas comem
o Santo Padre todas as manhãs,
uma freira a quem nada escapa
e que depois de morta vai ser santinha
ensinou-lhes que em vez de papa
elas devem dizer farinha.
Natália Correia (1923-1993)
in Poesia Completa, Ed. Dom Quixote, pg. 55
comem todas as manhãs
uma loura papa de aveia
e nisto são meninas cristãs.
Mas para que não conste que estas florinhas
são antropófagas e pagãs,
para que se não diga que elas comem
o Santo Padre todas as manhãs,
uma freira a quem nada escapa
e que depois de morta vai ser santinha
ensinou-lhes que em vez de papa
elas devem dizer farinha.
Natália Correia (1923-1993)
in Poesia Completa, Ed. Dom Quixote, pg. 55
27 agosto 2012
A nona elegia de Rilke
A nona elegia
PORQUÊ, se é possível viver o prazo da existência,
até ao seu termo, como loureiro, um pouco mais escuro do que
todos os outros tons de verde, com pequenas ondas no rebordo
da folhagem (como o sorriso de um vento) -: porquê então esta
forçosa existência humana – e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...
Oh! Não porque há a felicidade,
proveito antecipado de uma perda próxima.
Não por curiosidade, ou para exercitar o coração,
que também haveria no loureiro…”
(…)
Rainer Maria Rilke
(1875-1926)
In “As elegias de Duíno”
Ed. Assírio & Alvim, 1993, pg. 83
PORQUÊ, se é possível viver o prazo da existência,
até ao seu termo, como loureiro, um pouco mais escuro do que
todos os outros tons de verde, com pequenas ondas no rebordo
da folhagem (como o sorriso de um vento) -: porquê então esta
forçosa existência humana – e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...
Oh! Não porque há a felicidade,
proveito antecipado de uma perda próxima.
Não por curiosidade, ou para exercitar o coração,
que também haveria no loureiro…”
(…)
Rainer Maria Rilke
(1875-1926)
In “As elegias de Duíno”
Ed. Assírio & Alvim, 1993, pg. 83
18 julho 2012
09 julho 2012
gaivota
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O´Neill
21 março 2012
No dia mundial da poesia

O sono retirou-se do meu
corpo e as cigarras
atormentam as minhas noites.
Depois de teres
partido, os lençóis da cama
são como limos frios
que se agarram à pele.
Porém, se me levanto,
não faço mais do que arrastar
a solidão pela casa;
talvez procure ainda um
gesto teu nos braços
do silêncio, como um pombo
cego a debicar
as sombras na única praça
deserta da cidade -
o amor nunca aprendeu a ler
nas linhas da mão.
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,
in O CANTO DO VENTO DOS CIPRESTES (Gótica, 2001)
Foto de José M G Pereira
21 fevereiro 2012
o que é o espaço?
O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?
O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta
Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível
Ana Hatherly
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?
O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta
Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível
Ana Hatherly
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003
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