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08 outubro 2009

Boneca de pano-encantado V

Revolvem-se os folhos
de um vestido de pano
numa boneca de pano-encantado,
feito de trapos,
remendado,
com emendas sucessivas,
impostas pela sucessão dos dias.

Revolvem-se as cores
que se foram gastando com o tempo,
como o foram o brilho do seu sorriso fingido,
a beleza do seu velho vestido
e as suas mãos, que se tornaram frias.
Dir-se-ia tratar-se de uma boneca condenada
com a raiva de viver em sorrisos ocultada.
Dir-se-ia ser uma imagem da apatia
de uma boneca de vida vazia.
E tudo o que se diga não vai chegar
porque se está a falar
de uma boneca que queria revestir-se
não de pano mas de mar.
São os sonhos que a mantêm
numa prateleira à espera
de dias compridos
em que o Sol a deixe falar com os deuses
que seus mitos possam cristalizar.
São os sonhos que lhe revolvem os folhos
debotados pelo tic-tac contínuo
do livro onde sem querer
esta boneca de encantado-pano acabou por entrar.

São os sonhos
que admitem remendos no vestido,
no seu corpo,
no seu corpo desde sempre remendado.
São os sonhos
e a imagem de um mundo
também ele encantado.

Carmen Zita Ferreira
in Jogo de Espelhos, Ed. Som da Tinta, 2004

15 setembro 2009

Emigração


Fotografia de Maria José Ramôa


Em Março de 2010 será lançado o novo romance de José Luís Peixoto, com o título “Livro”, que trata o tema da emigração portuguesa para França, nos anos 60.
Neste “quarto” já se sente curiosidade em ver como tratará o autor um tema que tanto diz aos portugueses, em geral e às colaboradoras deste espaço, em particular.
Até lá ficamos com um poema do autor.

QUARTO
Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.

José Luís Peixoto
in Gaveta de Papéis,
Prémio Daniel Faria 2008, Edições Quasi, 2008

14 setembro 2009

Boneca de pano-encantado IV

Fotografia de Nuno Estrela


Brinca, boneca-de-pano-encantado.
Teus trajes são sonhos,
tua fantasia é nada.
Da tua quimera
perdida e desencantada
não podes exigir nada mais do que horror.
De que esperas?
Crescer não poderá ser solução.
Estagnada à beira do pontão
que deixa a tua ilha e entra no mar,
brinca.
Deixa cair teu corpo,
entra no atraente brilho molhado,
não lutes contra as ondas,
despede-te de teu navio ancorado
e todos pensarão
que continuas a brincar.

Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos, 2004,

Ed. Som da Tinta, pg.25

12 setembro 2009

Boneca de pano-encantado III


Fotografia de Sérgio Simões

De regresso às nuvens
veio uma boneca-de-pano-encantado,
que as nuvens sempre quis habitar
e nunca outro lado.

Que viagens de perdição acolheu
nestes dias em que no seu reino não choveu.

A vertigem da subida ao céu
ofereceu-lhe a loucura.

Vertigem de sentir demais,
vertigem de sentir ser a mais a dor que a consome.

Regresso às nuvens.
Aventura.
Boneca que de fantasia tem fome
das nuvens fez sua casa.
Boneca sem vida,
viver nas nuvens pode ser bom
mas o Sol que aquece,
por vezes abrasa.


Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos,
2004, Ed. Som da Tinta, pg. 23

05 setembro 2009

Boneca de pano-encantado II




Fotografia de Julia Kan

Uma boneca de pano-encantado,
que vivia perdida em labirintos de simulações,
acordou diferente uma manhã
desconhecendo as razões.

Suas pernas de trapo desapareceram,
substituiu-as uma cauda sedosa.
Um cabelo forte e rebelde,
suas tranças cor-de-rosa.
Seus olhos fixos, de boneca encantada,
por olhos vivos, como os de quem não quer perder nada.
Suas mãos sem dedos e de algodão
por dez dedos que anseiam tocar marés.
As penas, que habitavam seu coração
por mil desejos, de ter o mundo a seus pés.
Dezenas de bonecos companheiros
por um golfinho só para encantar.
O pó de suas prateleiras
pelo encanto do seu infinito mar.
A escuridão das ausentes estrelas
por uma pura luz... Pelo luar.
Uma simples boneca de encantados trapos,
a quem quedavam sonhos, planos e vida
acolheu a essência de cada dia,
para nunca ter uma jornada perdida.

Substituiu castelos
por mar, Sol e areia.
Não, já não é uma boneca.
Não, hoje acordou sereia.


Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos, 2004,
Ed. Som da Tinta, pg.19

27 agosto 2009

Boneca de pano-encantado - I

Fotografia de Gabriela C. Bertão


Sorri, boneca de pano-encantado!
Mostra que, apesar de não a teres sonhado,
acolhes a realidade que hoje vives.

Sorri, pois estão a olhar para ti.
Ninguém se importa se quer chorar quem ri
sonhando um longínquo paraíso acordado.

Olha a multidão que não te olha,
vê como estás só neste sufoco de gente.
Vê como no fundo és tão diferente.

Luta, boneca, luta,
por aquilo que querem que vás lutar,
por aquilo que nunca ambicionaste amar.

Luta, por alguém que há-de vir
por alguém que vai ter de sorrir
mesmo que, no fundo, queira chorar.

Serão teus filhos?
Saberão eles quais são os perigos
de não se sorrir, quando se não quer?
Saberão eles que, se forem “mulher”
o mundo pouco terá para lhes oferecer,
apenas imposições, dores e castigos?

Sorri, boneca de pano-encantado!
Acaba de escrever, põe o pensamento de lado
e a tua cara decora com sorrisos.

Podes escrever... pouco... mas podes.
Não podes é ambicionar ou querer
que depois alguém dê valor ao que vai ler.

És mulher: o que podes fazer é ensinar.
Ensinar a ler, ensinar a amar,
ensinar a ver a luz que te consome.

Consomes, tu, a luz de um doce olhar,
consomes o gosto de um salgado mar
e mesmo sem os teres, deves sorrir.

Sorri boneca de pano-encantado!
Encara o futuro,
liberta-te do passado.
lembra-te que ainda pode haver
um porto seguro
e recatado,
que acolha o teu sorrir,
o teu viver.
Lembra-te de que “a esperança
é a última a morrer”.



Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos, 2004,
Ed. Som da Tinta, pg. 17

04 agosto 2009


Sinto-me atraída pelo movimento das águas,
Como se lhes invejasse a corrente,
O incansável correr,
Por um leito perfeito.
Essa força que vence barreiras,
Esse constante anseio pelo MAR!
Sinto-me atraída pelo seu brilho,
Como se lhes invejasse a cor,
A altiva transparência,
Por trás de um verde...
Esse verde cor-de-sonho,
Essa vontade de ser, um dia, AZUL!
Sinto...
Que bom é sentir,
Uma vez mais,
Uma vez mais,
Uma vez mais.

Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos, 2004, Ed. Som da Tinta

13 julho 2009

sobrepor camadas de cal fresca ou de verniz no aparente

“(…) A gente sabe bem que quem criou a lei mantém-lhe o conteúdo
Não é com post-scripta e duplas rubricas
Que um código se muda.
Nada se rectifica
Ao sobrepor camadas de cal fresca ou de verniz no aparente.
O fingir-dar sem se dar realmente
Não tira a quem tem fome.
A fome de ternura, de liberdade, de ar
Fome de sol, de pão, de cheiro a mar
Fome de ter amor
Fome de amar.
A fome dos que têm mesmo fome, disto, daquilo, seja do que for.

Mas se é longa a espera
Longo o tempo
Fatigam-se as esperanças
E a fome longamente acumulada faz arrancar do sonho a mais funda raiz.”

Maria Eugénio Cunhal.
As mãos e o gesto. Ed. Escritor, Lisboa, 2000. pg.61/62.

11 julho 2009

Desejo

“Atravessara o verão para te ver
dormir e trazia doutros lugares
um sol de trigo na pupila;
às vezes a luz demora-se
em mãos fatigadas; não sei em qual
de nós explodiu uma súbita
juventude, ou cantava:
era mais fresco o ar.
Quem canta no verão espera ver o mar.”

Eugénio de Andrade.
Poesia. Ed. Fundação Eug. de Andrade, 2000. pg. 338

10 julho 2009

Canção do caminho

Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajecto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço! (…)

Cecília Meireles
in O instante existe,
Ed. Arte Plural, pg. 60

11 junho 2009

Uma imagem

Uma imagem:
O vento varre a poeira dos olhos.
Abrem-se e vêem que teu mundo não era paraíso.
Perdeu-se.
Não o voltarás a encontrar.
O paraíso não existe.
Só existe e realidade que te adormece para o mundo.
Se continuares a ignorar esta imagem
Deixarás parar tuas mãos no fundo
Acreditando que nada é preciso mudar.

Uma imagem:
O Sol levanta-se num horizonte de mar
Que vai encantar teus dias azuis
Por ti conquistados.
Não os vais querer perder.
O paraíso não existe.
Mas existe realidade melhor do que ele.
Conquista-a e vive por ela.
Deixarás teus olhos, tua alma voar
Sobre essa realidade que decidiste conquistar.

Carmen Zita Ferreira
in Jogo de Espelhos, 2004,
Ed. Som da Tinta, pg. 49

27 maio 2009

O Túmulo de Edgar Poe

O Túmulo de Edgar Poe

Tal que em si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!

Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo termos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.

Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,

Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro voo blasfemo esparso no futuro.

Sthéphane Mallarmé
Tradução de Jorge de Sena.

17 maio 2009

Danger

Fotografia de José Lopes


Notice to an absent-minded reader:
poetry is a soft way
of bewildering.

Carmen Zita Ferreira
in Jogo de Espelhos,
Ed. Som da Tinta, 2004, pg. 47
(Tradução de
Tânia Graça)

08 maio 2009

A voz de Ana Hatherly

Ana Hatherly, poeta e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, celebra hoje, 08 de Maio de 2009, o seu 80º aniversário.
Lembro-me das suas aulas, do seu sorriso e sobretudo, do seu olhar transparente e fascinante.
Deixo aqui um dos seus poemas.


Um rio de luzes


Um rio de escondidas luzes

atravessa a invenção da voz:

avança lentamente

mas de repente

irrompe fulminante

saindo-nos da boca


No espantoso momento

do agora da fala

é uma torrente enorme

um mar que se abre

na nossa garganta


Nesse rio

as palavras sobrevoam

as abruptas margens do sentido.


in O Pavão Negro,
Ed. Assírio & Alvim, 2003

28 abril 2009

Na hora da solidão

Fotografia de José Ferreira
Na hora da solidão
arrumam-se os medos
em pequenas caixas
pintadas a carvão
pelas mesmas mãos
pelos mesmos dedos
com que se apontam alegrias
em secretos diários de ouro
(esse revelador clarão).

Na hora da solidão
o silêncio.

Na hora da solidão
a luz.

Carmen Zita Ferreira
II Antologia de Poetas Lusófonos,
Ed. Folheto, 2009, pg.74

08 abril 2009

As letras como poesia

A propósito do último post da EBernardes divulgo o livro de Vitorino Almeida Ventura, da chancela das Edições Afrontamento, lançado em Março findo, no Clube Literário do Porto.

Trata-se de um ensaio sobre as letras das músicas da «Banda do Casaco» (António Avelar de Pinho), «Belle Chase Hotel» (JP Simões), «Clã» (Carlos Tê), «GNR» (Rui Reininho), «Mão Morta» (Adolfo Luxúria Canibal), «Ornatos Violeta» (Manel Cruz), «Sérgio Godinho» (Sérgio Godinho), «Três Tristes Tigres» (Regina Guimarães).

É um livro que tenciono comprar. Acho o tema muito interessante e quero ver se o autor vai de encontro à minha visão, ou se me vai surpreender com uma tese que me faça mudar de opinião (ou pelo menos complementá-la).
Para já devo dizer que gosto da forma como o título do livro é apresentado, permitindo duas leituras: Letras com poesia e As letras como poesia. Bem pensado.

02 abril 2009

Dia Internacional do Livro Infantil



Hoje assinala-se o Dia Internacional do Livro Infantil, dia escolhido em homenagem a Hans Christian Andersen que nasceu a 2 de Abril de 1805.
Neste quarto assinala-se a data com o último livro infantil (bem interessante para adultos também) comprado por mim, que contém este poema (o último a ser lido cá por casa, mesmo agora):

Ser pente ou serpente


Ser pente
é tão estranho,
disse a serpente.
Para quê tanto dente
sem veneno para matar?

Serpente
é tão estranha,
disse o pente.
Para que servem os dentes
senão para pentear?

Luísa Ducla Soares
in A cavalo no tempo.
Porto, Ed. Civilização, 2.ª edição, 2008, pg.16

(Ilustrado por Teresa Lima)



30 março 2009


II Antologia de Poetas Lusófonos

A Folheto Edições, a Câmara Municipal da Batalha e o Director do Mosteiro da Batalha têm a honra de convidar todos os que passam por este “quarto que sente” para a apresentação da II Antologia de Poetas Lusófonos, na qual eu participo com cinco poemas.
A cerimónia terá lugar no Mosteiro da Batalha, no dia 5 de Abril de 2009, com início às 15h30, nas Capelas Imperfeitas, com a actuação da Orquestra Filarmonia das Beiras. Às 16h30, no Auditório do Mosteiro, terá lugar a apresentação da II Antologia de Poetas Lusófonos.
Haverá um momento de poesia com a participação de vários poetas.
Apareçam!

24 março 2009

Finalmente encontrei uma tradução que me agrada do poema de que mais gosto do Edgar Allan Poe.
Tinha de a partilhar convosco. É uma tradução de Henrique Fialho (que a semana passada encerrou o seu blog) e com ela termino, eu, este ciclo dedicado a Allan Poe. Pelo menos por agora.
Um grande abraço a todos os companheiros desta pequena aventura (um ainda mais forte para a EBernardes, por... tudo).




Desde a hora da infância eu não fui
Como outros foram - eu não vi
Como outros viram – não pude tomar
Minhas paixões duma primavera vulgar.

Da mesma nascente eu não traguei
A minha tristeza; eu não despertei
Para o júbilo comum o meu coração;
E tudo o que amei, eu amei em solidão.
Nesse tempo da infância – na madrugada
Da vida mais tormentosa – foi traçada
Das profundezas do bem e do mal
O mistério que me mantém sem igual:
Da torrente ou da fonte,
Do rubro penhasco do alto monte,
Do sol que gira em meu torno
Num matiz dourado de Outono –
Do relâmpago no céu
Que tão perto de mim se deu –
Da tempestade e do trovão,
E da nuvem que adquiriu a feição
(Quando azul era o resto dos Céus)
De um demónio aos olhos meus.

Edgar Allan Poe