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20 novembro 2008

Jogo de espelhos


Fotografia de Carlos Loff Fonseca


Partem-se com promessas de azares
Sucumbidos pelo vento matinal que nos acorda
Às horas em que finalmente julgávamos conseguir dormir.
Para eles olhamos directamente.
Em alguns vemos em nossos pescoços uma corda
Noutros esboçamos o mais belo sorrir.
É um jogo que nem todos conseguem jogar.
Uns nem chegam mesmo a acordar
Quando o vento matinal decide quebrar os espelhos
Que atenciosamente guardam em seus quartos.
Outros julgam que por se não quebrarem os deles
São os espelhos certos
E não chegam a jogar.
Eu
Revejo-me em cada pedaço partido que me reflecte
E julgo não acreditar no azar.

Carmen Zita Ferreira
In Jogo de Espelhos. Ed. Som da Tinta, 2004, pg. 7

24 setembro 2008

Previsão do tempo num litoral incerto

Fotografia de Nuno Abreu


Anunciam-se chuvas,
que cairão formosas e seguras
sobre os telhados que de vidro forem.

Os outros, que de vidro não são,
podem ficar sossegados,
porque sobre eles as chuvas também cairão.

Anunciam-se ventos,
enlaces, casamentos,
festas de despedida
e rituais de iniciação.

Prevê-se a queda de pedras
vindas de todas as veredas
em movimentos antigos
de pura e total condenação.

Caída a noite as ondas
atingirão, animadas
os transeuntes desprevenidos
e escondidos na escuridão.

Madrugada fora naufrágios,
maremotos, maus presságios,
subida da temperatura e geadas:
Esta é a minha previsão.

Carmen Zita Ferreira
in Poiesis XVI - Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea.
Ed. Minerva, Lisboa, Junho de 2008, pg.48

15 julho 2008

Regresso


Fotografia de Nuno Abreu

Regresso

Afasto-me do mar
que apaga minhas pegadas
sempre que dele me estou a afastar.
Ganha nova força
e sobe até à marginal
este velho conhecido que me atrai,
que me sussurra ao ouvido:
“Voltarás!
Essa pegada já se foi
mas outras um dia marcarás!”

É sábio o meu amigo.
E com frases sábias me encanta
enquanto limpa da areia meus pés
como se esta fosse uma sagrada manta.
Minhas marcas já ninguém vê.
Só o mar sabe que até ele desci.
No meu regresso só ele crê
pois só ele me sentiu por aqui.

Carmen Zita Ferreira
in Do mar grande e d’outras águas,
Gama Ed., 2006, pg.39

08 maio 2008

Promessa



Fotografia de Nuno Abreu

Na ribeira que sulca
os leitos deste labirinto
procuro a cesta de vime
que suavemente te trará
até mim.
Deixa-te embalar pela corrente
até ao calor do rubro abrigo
que te aguarda, meu bem.
Na encruzilhada de três rios
que encontrarás na viagem
ao fundo de ti,
antes de continuares
pelo fabuloso caminho,
em recolhimento reflecte
e depois escolhe uma qualquer rota,
meu infante,
porque o destino te trará aqui.
Entretanto eu esperarei
e dia após dia guardarei
todos os tesouros
que para ti estão reservados:
Reino encantado, com nuvens de chocolate,
refúgios de luz escarlate
e translúcidos lagos.

Carmen Zita Ferreira
in Do mar grande e d’outras águas,
Ed. Gama, 2006, pg.42

25 abril 2008

Questão


Agora que Abril é nosso
e as palavras teimam
em não se transformar em actos,
quem é que se apropria de factos
que em nada da sua vida
se reflectem?

Agora que Abril nasceu
para aqueles que o não fizeram,
quem nos quer tapar os olhos
com lantejoulas, brilhantina e folhos
enquanto suaves tiranias
se cometem?

Carmen Zita Ferreira
Abril’2008

Fotografia de PlasticBag

03 março 2008

Multidão

Fotografia de Pedro Noel da Luz
http://olhares.aeiou.pt/petrosdune


Multidão

Correm, com passos de gente que se atrasa,
olhando o relógio, para a hora do suicídio.
Correm, sob um sol que queima, abrasa,
num torturar inquieto, novo e antigo.

Esbarram nos vultos que com eles se cruzam,
fazendo parte de uma multidão sempre igual.
Esbarram e quase nunca se olham
temendo a pausa que impõe o reconhecimento do mal.

Parar é morrer e perder o barco
que nos leva à margem onde o suicídio é feito,
onde com a morte fazemos a cada dia um pacto.

E assim vamos correndo com pressa, na solidão
que marca a diferença no meio de tanta gente
que corre, todos os dias, para ganhar um pedaço de pão.


Carmen Zita Ferreira
in Jogo de Espelhos,
Ed. Som da Tinta, 2004, pg.33

11 fevereiro 2008

Já é tarde

Fotografia de Nuno Abreu


JÁ É TARDE, AMOR

Já é tarde, amor,
para que a Lua se encha de azul
e nos transporte para as montanhas selvagens
onde uivam os lobos perdidos.
Já é tarde
para se criarem novas imagens
que representem sonhos antigos.
Até a chuva se cansou de esperar,
até ela caiu, se perdeu
e se confundiu com o mar.
As estrelas dançam no limiar do cosmo
e o seu destino entregam nas mãos
dos deuses da antiguidade.
Penso que é assim
porque já é tarde.
Cansaram-se de lutar
para não pertencerem só à noite,
porque é tarde, amor,
e toda a Natureza
se contenta com a sua sorte.

Carmen Zita Ferreira
in Jogo de Espelhos,
Ed. Som da Tinta, 2004, pg. 65